As tendas incomodam. A crise, não?

Paula Marques

Consultora e formadora Direitos Humanos e Sociais

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Seis cargas policiais em 18 dias e um dispositivo policial desproporcionado perante uma manifestação que tem como símbolo uma tenda. É absurdo. A violência policial é inaceitável, mas revela também a violência política de um Governo que parece mais empenhado em reprimir quem protesta do que em resolver os problemas que levam as pessoas à rua.

Não há aqui um problema de ordem pública ou de circulação que justifique esta obsessão. Ao longo dos anos, setores profissionais e cidadãos acamparam junto à Assembleia da República, a municípios e ministérios, sem que se assistisse a esta escalada repressiva.

A pronúncia do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, ao reconhecer a dimensão simbólica da tenda no contexto da manifestação, representa uma importante vitória para o movimento das acampadas. É o reconhecimento de que a tenda não é apenas um objeto no espaço público: é o símbolo de quem não tem casa, de quem não consegue pagar uma renda e de quem exige respostas perante uma crise que lhe rouba o futuro.

A obsessão pelas tendas é uma cortina de fumo para desviar as atenções da verdadeira questão: a incapacidade política de responder à crise da habitação.

Durante a manifestação no Rossio, uma jovem dizia-me: “Saí de casa aos 18 anos, tenho 36 e, ao fim deste tempo todo, vejo-me na necessidade de voltar para casa dos meus pais.” E acrescentava que, além da falta de respostas, lhe doíam a falta de empatia e a arrogância de quem governa.

Esta é a realidade que o Governo não quer ouvir. Uma geração que trabalha, procura construir a sua autonomia e descobre que nem um salário garante o acesso a uma casa. Famílias sufocadas pelas rendas, jovens sem possibilidade de sair de casa dos pais, pessoas empurradas para longe dos lugares onde trabalham e vivem.

A crise da habitação é o resultado de opções políticas. A crença de que o mercado tudo resolveria conduziu-nos até aqui. A especulação e a transformação da habitação num ativo financeiro não garantiram casas acessíveis. E insistir em medidas que favorecem esta lógica, em vez de reforçar a resposta pública, só agravará a crise. Precisamos de investimento público, habitação pública e cooperativa, mobilização do património injustificadamente devoluto e regulação efetiva do mercado de arrendamento.

Mas este Governo está desaparecido. O ministro da Administração Interna desvaloriza os relatos de violência policial e o primeiro-ministro ignora o desespero de quem protesta. Em vez de escutar, reprime; em vez de apresentar soluções, transforma as tendas no centro do debate.

Parece não ter percebido que o quadro político mudou. Às greves gerais e à derrota do pacote laboral sucedem-se as mobilizações pela habitação. E porque não uma nova Greve Geral, desta vez, ibérica? Lutas diferentes, unidas pelo amplo apoio popular e pela exigência de respostas concretas. As manifestações são cada vez mais participadas, juntam diferentes gerações e mobilizam crescentemente os jovens. São o espelho do descontentamento e do desaire político de Luís Montenegro.

A possibilidade de Belém receber representantes das acampadas pode projetar o movimento para outro patamar de reconhecimento político e institucional.

Podem tentar retirar as tendas da rua. Não podem, pela força, retirar a crise da habitação da vida das pessoas. O problema nunca foram as tendas. É um Governo mais preocupado em reprimir os símbolos da crise do que em combater as suas causas.