A memória dos tempos finais do cavaquismo, nos anos 90, aconselharia os seus atuais herdeiros a não menosprezarem o impacto da contestação social nas ruas, sobretudo quando é evidente um fervilhar acumulado por baixo da tampa da panela de pressão social. E a habitação é, seguramente, o mais estrutural dos problemas que o alimentam, condenando ao desespero uma geração inteira de jovens adultos (mas não só, que a gentrificação não poupou idades).
Para quem já não se recorda, a forte contestação social e os grandes protestos de rua na primeira metade dos anos 90 – do bloqueio da Ponte 25 de Abril às manifestações estudantis contra a PGA – foram fatores decisivos para o desgaste e, em última instância, o fim do cavaquismo na governação, deixando também para arquivo um longo rasto de imagens de violentos confrontos e repressão policial nas ruas.
De Luís Montenegro e Pedro Duarte, um primeiro-ministro e outro presidente de uma das principais autarquias do país (Porto), figuras de proa do atual PSD – e, pelo menos no caso do PM, até um declarado “delfim” de Cavaco –, esperava-se que essa memória histórica aconselhasse sensibilidade e bom senso na resposta aos movimentos de protesto pela habitação que esta semana começaram por encher a Praça D. João I, no Porto, e se estenderam também a Lisboa e outras cidades. No entanto, começou por falar mais alto a tentação de passar uma ideia “implacável” de ordem pública. De menosprezar os manifestantes como “arruaceiros” e “provocadores”. De os colar ao “egoísmo” político de partidos da oposição. O que, combinado com uma carga policial de proporcionalidade duvidosa, só fez escalar a dimensão do protesto, como se constatou pela adesão aos movimentos das “acampadas” nos dias seguintes.
É claro que um Governo não deve alterar o seu programa ao ritmo e volume dos “gritos que vêm da rua” – expressão usada pelo ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim. Mas uma coisa é não governar ao sabor da pressão das ruas; outra, muito diferente, é governar de costas voltadas para as ruas.
E, neste caso, reduzir as manifestações pela habitação a provocações de “infiltrados e arruaceiros” é passar uma mensagem de desrespeito por milhares de pessoas que enfrentam um problema gravíssimo para o qual não se vislumbra solução no horizonte. Antes de tentar esvaziar as praças com a maior rapidez, seria bom que o primeiro sinal dado pelos nossos governantes fosse o de que se importam, de facto, com aquilo que levou as pessoas a ocupá-las.
Felizmente, nesta madrugada de domingo, o bom senso imperou de parte a parte, manifestantes e autoridades, mostrando que é possível o protesto democrático nas ruas sem escaladas de violência.
Num tempo em que a contestação social se multiplica por toda a Europa, atingindo dimensões bélicas em países como a França, importa valorizar e preservar esse exemplo. É a melhor forma de evitar que o protesto encontre abrigo em movimentos extremistas como os que vandalizam meia Europa.