As elites, a decadência da sociedade e a insignificância das mulheres

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Os ficheiros de Jeffrey Epstein e a sua divulgação - mesmo que truncada e tardia - ficarão para a História como a revelação do papel das elites na decadência da sociedade contemporânea. Num dos mais consultados dicionários da língua portuguesa, a palavra “elite” tem o seguinte significado: “minoria social que se considera prestigiosa e, por isso, detém algum poder e influência.” Mas na verdade são muitas vezes o oposto.

Esta elite, composta por políticos, magnatas dos negócios e das grandes tecnológicas, artistas e académicos, abrange pessoas de todos os posicionamentos partidários e ideológicos, nacionalidades e religiões. O que têm em comum é o poder. Poder político, financeiro, social, académico. As elites em vez de representarem o que de melhor tem a sociedade, são, na verdade, agenciadores da decadência moral e ética e da exploração dos mais fracos pelos mais fortes.

Para a construção de uma sociedade decente, justa e coesa, seria muito importante que estas revelações viessem a ter as consequências devidas em função da sua gravidade, ao nível judicial, político, social e na opinião pública e publicada. Nos EUA, desde logo, mas não só. Infelizmente, tenho pouca esperança de que tal aconteça. A principal consequência do privilégio é, exatamente, a impunidade e nunca ser responsabilizado pelos seus atos.

No meio de todos os milhares de factos divulgados, perversos e abjetos, as mulheres violadas e abusadas quando meninas e adolescentes começaram a diluir-se no conjunto da mercadoria trocada. Epstein traficava dinheiro, influência, informação, favores… e raparigas menores de idade, socialmente vulneráveis e oriundas de famílias desfavorecidas. Mas estas mulheres não são mercadoria. São pessoas, com nome, com sentimentos e com uma vida que nunca mais será aquela a que tinham direito e que lhe foi roubada de forma criminosa.

Desde os anos 2000 que surgiram as primeiras denúncias, mas só muito mais tarde, em 2019, tiveram consequências criminais para Epstein e Ghislaine Maxwell, mas é preciso continuar a investigar todos os outros envolvidos. E é preciso ressarcir as vítimas, mesmo que o lhe foi feito seja totalmente impossível de apagar ou sequer mitigar. Se hoje começamos a saber o que se passou é porque dezenas de mulheres, tantas vezes revitimizadas pelo sistema que pactuou com os abusos a que foram sujeitas, tiveram coragem de falar.

A detenção do Andrew Windsor, ainda que o motivo seja a suposta partilha de documentos oficiais e não a alegada violação de Virginia Giuffre (que afirmou numa entrevista ao Guardian que ele achava que tinha o “direito de nascença” de ter sexo com ela) é um início.

O envolvimento e a tolerância que muitos - incluindo pessoas que todos admirávamos, como Noam Chomsky - demonstraram face ao “esquema de molestação em pirâmide” (como o apelidou o advogado das vítimas) montado por Epstein é sintomático de que a violência contra as mulheres, sobretudo as mais desfavorecidas, ainda não é levada suficientemente a sério na nossa sociedade.

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