A pergunta, que pedi emprestada a Guerra Junqueiro, resume genialmente a perplexidade de um ser humano com o sofrimento de uma criança. Perplexidade tão grande, que houve quem dissesse que o sofrimento de uma criança demonstrava a inexistência de Deus.O sofrimento das crianças também é abordado por Bernardo Soares no Livro do Desassego, evidenciando a preocupação de Pessoa com o tema. Preocupação que recentemente me atingiu com duas notícias dos media.Na primeira, contava-se que um pai saltara do 8.º andar do prédio onde vivia para a morte com a filha de 4 anos nos braços, num contexto de violência doméstica, aparentemente para se vingar da mãe da criança, causando a morte de ambos.Na segunda, se possível ainda mais horrível do que a anterior, dava-se conta de que uma mulher estrangulou até à morte e depois enterrou numa mata uma menina de 8 anos, filha do companheiro – sua enteada –, para se vingar da violência que este exerceria sobre os seus filhos.Com perfis distintos, estes dois casos apresentam aspetos comuns.Desde logo, o completo desprezo pelas vidas de duas crianças, destruídas impiedosamente. Depois, a utilização das crianças como instrumentos de vingança para atingir adultos - a mãe da criança, no primeiro caso, o pai, no segundo.Se é verdade que o sofrimento de uma criança é sempre terrível – tenham-se presentes as imagens das crianças vítimas de cancro no IPO –, não é menos verdade que este sofrimento não lhes é causado intencionalmente por ser humano algum. Os seres humanos envolvidos, bem pelo contrário, fazem tudo, incluindo o impossível, para salvar aquelas pequenas vidas.O que é mais revoltante e intolerável nos casos noticiados é que as vidas das crianças foram sacrificadas num quadro de conflitos entre adultos, sobre os quais recaía a obrigação de as proteger.Não fosse eu um irredutível inimigo da pena de morte, e estes seriam os casos que me colocariam perante um difícil problema de consciência: manter-me fiel aos meus princípios e deixar um assassino de crianças vivo ou colocá-los entre parênteses e ajudar a livrar o planeta destes monstros?Não consigo compreender que diabólico designío prosseguem aqueles que matam intencionalmente uma criança. Menos ainda quando a vítima da perversidade é um filho.Seja como for, mesmo sem pena de morte, a Justiça tem meios adequados para castigar os assassinos de crianças: pena de prisão máxima (25 anos), sem qualquer possibilidade de libertação antes do termo de tal prazo.E, por favor, não tentem desculpar o indesculpável com análises psiquiátricas: se os assassinos não são senhores dos seus atos, se foram submetidos a pressões irresistíveis ou sofrem de pulsões homicidas, se são psicopatas ou sociopatas, então não estão em condições de viver em sociedade e esta tem de ser protegida deles. Internem-nos em estabelecimento de saúde apropriado, e mantenham-nos lá, pelo menos pelos mesmos 25 anos.