As cores que recusamos ver

Paula Marques

Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa

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Esta semana proponho-vos um registo diferente do habitual. Entre a reflexão e a indignação. Entre a beleza de algumas histórias e a desumanidade de demasiadas decisões políticas.

A Suíça rejeitou, em referendo, uma proposta que pretendia limitar o crescimento da população até 2050. Os seus promotores tentaram apresentá-la como uma questão de sustentabilidade e planeamento. Mas todos sabíamos do que realmente se tratava. Tal como acontece um pouco por toda a Europa, a imigração continua a servir de bode expiatório para problemas complexos e de combustível para uma agenda política baseada no medo.

É uma notícia que merece destaque num continente onde a extrema-direita cresce alimentando-se da ansiedade, da insegurança e da procura incessante de culpados. E onde migrantes e refugiados são cada vez mais transformados em ameaça, mesmo quando são eles que vivem ameaçados.

A 20 de junho assinala-se o Dia Mundial do Refugiado. A data obriga-nos a olhar para uma realidade que muitos preferem ignorar. Ser refugiado não é uma escolha. Ninguém abandona a sua casa, a sua família, o seu trabalho, a sua terra e as suas memórias por capricho. Ninguém atravessa desertos ou oceanos em barcos precários porque quer. As pessoas fogem porque a alternativa é a guerra, a perseguição, a violência ou a morte.

Como é possível que uma mãe que atravessa um mar com os seus filhos seja apresentada como um risco para a segurança nacional? Como é possível que um jovem que foge de uma guerra seja transformado num problema estatístico ou numa arma eleitoral?

A resposta está na normalização de uma narrativa que substitui pessoas por números, histórias por estereótipos e direitos humanos por cálculos eleitorais.

A extrema-direita tem sido particularmente eficaz nesta operação. Mas seria desonesto ignorar que muitos partidos democráticos optaram por seguir atrás dela em vez de a enfrentar. Assimilaram a sua linguagem, validaram os seus pressupostos e ajudaram a deslocar o centro do debate para posições que há poucos anos seriam inaceitáveis.

O novo Pacto Europeu para as Migrações e o Asilo é um exemplo dessa deriva. Apresentado como uma solução equilibrada, privilegia o controlo e a contenção, colocando demasiadas vezes a proteção das pessoas em segundo plano.

Em junho de 2024 existiam 43,7 milhões de refugiados em todo o mundo. Quarenta e três milhões de vidas interrompidas. Quarenta e três milhões de histórias marcadas pela perda e pela esperança de um recomeço.

Por isso, deixo um desafio: saiamos da nossa bolha. Vejam “Lost at Sea” dos Médicos Sem Fronteiras ou “When you Don’t Exist” da Amnistia Internacional. Leiam Uma Espécie de Azul, de Inês Ramos, uma belíssima história sobre a descoberta de outras cores para lá daquelas que conhecemos.

Aprendamos a ver as cores que recusamos ver. A perceber que existem outras culturas, outras experiências e outras formas de olhar o mundo. Nenhuma delas ameaça a nossa humanidade.

Quando alguns usam o medo como programa político, o maior ato de resistência é recusar a indiferença.

Porque antes de serem refugiados, migrantes ou requerentes de asilo, são pessoas. E uma democracia deve medir-se, acima de tudo, pela forma solidária como trata os mais frágeis.

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