Arte e matemática

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

Publicado a

Sophia de Mello Breyner disse um dia que o essencial numa escola obriga à presença de poesia, música e ginástica. Perante esta afirmação o jornalista que a entrevistava perguntou se não faltava a matemática. A resposta da poeta não se fez esperar, definitivamente: “Como se distingue uma redondilha ou um alexandrino? Acha que é possível compreender a música sem matemática?”. Nada havia a acrescentar. Há dias, assisti com grande prazer, como habitualmente, ao programa “E Agora?”, na RTP 2, com Nuno Artur Silva, Isabela Figueiredo, Luísa Sobral, Maria Rueff e Gabriel Guimarães. Sou suspeito em relação às intervenientes e ao moderador, que conheço e admiro, mas não conhecia o mais jovem e é sobre ele que falarei. Tudo o mais dispensa apresentações, mas o tema da matemática na sua relação com a cultura e a arte, merece uma especial atenção. Por isso mesmo comecei por referir o diálogo que inicia esta crónica. O entusiasmo, a inteligência e a alegria de Gabriel Guimarães, autor de “A Matemática não Morde” transmite-se naturalmente, com um sentido a um tempo pedagógico e mobilizador. E melhor do que tecer considerações laterais, prefiro seguir o exemplo que nos foi dado testemunhar. Um caso prático. Afinal, os modelos matemáticos também funcionam não só para as epidemias mas também para ver como a desinformação se difunde e expande.

Se o Instagram não é um hospital, a verdade é que tem muita gente doente. E assim é-nos apresentado um modelo matemático que se designa por SIR e que divide a sociedade em três grupos: os Suscetíveis, os Infetados e os Recuperados. Os primeiros são vulneráveis à desinformação; os segundos já viram, acreditaram e se calhar partilharam e, por fim, há os que perceberam que aquilo é uma treta e foram à sua vida. Falando em termos técnicos, o modelo baseia-se em três equações diferenciais que descrevem como o tamanho de cada um desses grupos varia ao longo do tempo. O número é suscetível de variar porque muitos suscetíveis vão ficar infetados e porque as interações entre os suscetíveis e os infetados não param. O número de infetados aumenta com as novas infeções, mas pode diminuir à medida que as pessoas vão recuperando. Importa ter em consideração qual o número básico de reprodução – ou seja quantas pessoas em média são contagiadas por um infetado, assumindo que toda a população é suscetível. Se o valor é inferior a 1, a infeção tende a desaparecer. Se é igual a 1, a tendência mantém-se estável, e se é superior a 1 então estamos diante de uma epidemia. Afinal, o algoritmo não é neutro e estamos perante um efeito de crescimento incontrolável da desinformação.

Vemos assim, de um modo muito simples, por que razão o mundo dos números e das equações nos permite compreender a realidade através de representações esquemáticas e acessíveis. Veja-se como num exemplo que está ao alcance de todos podemos perceber como se alastra um fenómeno perturbador que corresponde à divulgação de um boato. Um cartoonista desenharia um pequeno mosquito a entrar no ouvido de um espectador, com ar relativamente plácido, abrindo uma série de rostos progressivamente perturbados, até à fisionomia de pânico, quando o mosquito se torna um elefante, qual tirano que destroça a verdade em nome da desinformação. Jogando com os números e com as equações diferenciais do que se trata afinal é de compreender com humor a realidade inesperada que nos cerca, com a imaginação fértil de um jovem matemático...

Diário de Notícias
www.dn.pt