António Lobo Antunes

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Era um amigo sincero que nunca esquecerei. Um dia disse-me: “Não me peça nada porque eu não sei como lhe dizer não.” Nunca lhe pedi um favor, apenas palavras que muitos desejavam ouvir. A sua generosidade foi sempre uma marca e um sinal da sua personalidade fantástica.

Desde o momento em que, no ano de 1979, foram publicados os dois primeiros romances, Memória de Elefante e Os Cus de Judas houve um percurso notável. E recordo o momento em que o li pela primeira vez: “O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar…”

De que nos falou? De pessoas comuns. Nesse ano, era Portugal que se adaptava às novas circunstâncias. E era o que interessava ao escritor, a partir de fragmentos da vida inesperados. E lembro o trabalho de Maria da Piedade Ferreira no diálogo de um escritor difícil com os seus leitores, que dizia não dever fazer eletrocardiogramas, mas sim escalas de Richter, porque “me parece que em lugar de coração tenho um sismógrafo cuja agulha assinala o menor estremeço interior ou exterior com uma amplitude imensa: basta-me viver, para a agulha não parar, e que cordilheiras de tinta os meus dias…”.

No Colóquio da Gulbenkian de 2019 disse: “Apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo.” É este o desafio perante o qual temos de nos haver. Os grandes amigos Ernesto Melo Antunes e José Cardoso Pires demonstraram, em memória e espírito, como as razões do coração constituem matéria-prima inesgotável. E Eduardo Lourenço: “Sob a inevitável complexidade artesanal da sua arquitetura, tudo atravessado por um humor subterrâneo, uma discreta ironia sulfúrica e uma espécie de inocência sábia, (…) de criança antiga, dona de um dedinho certeiro.”

Sim, o António também se preocupava com “uma máquina de entender o mundo, através do homem, infinitamente simples.” Havia o coração do coração, o antecipar o face a face, e o tentar começar a ver distintamente. “O que seria de mim (diz o escritor) se não escrevesse, povoado pelos meus cães negros? Agora, e até começar o livro, não cessam de rondar-me: sinto-lhes a respiração, o cheiro, a baba. Sinto-os roçarem-me. Vejo-lhes as órbitas amarelas, os dentes…”. Mas eis que é a vida que irrompe. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne, que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se atividade mais nobre?” Nada para. Os grandes romances, como a grande poesia, exigem que se releiam no maravilhamento da descoberta - “a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos”.

Bernard-Henri Lévy encontrou aí a reinvenção do tempo, o diálogo interior e a polifonia, como pontos essenciais da sua originalidade. O tempo, o mundo e o mal; a consideração da guerra como bomba atómica moral; mas também o domínio da escrita e da comunicação: a música, a pontuação - eis os elementos que colocam o escritor na galáxia dos maiores, daqueles que revelam capacidade de ir ao encontro da voz do leitor… Regressado da guerra, sabia de feridos, de tiros e explosões, de minas, de prisioneiros, de crianças mortas, mas ainda tinha sido poupado ao conhecimento do inferno. Assim pôde entender o género humano, a coragem e a tibieza, o fundo bom e as baixezas… O António acreditou nas pessoas, por ter tido a possibilidade de conhecer o inominável… Aqui tudo começa e continua. E, afinal “basta um sorriso para ressuscitar o universo”...

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