Antes que o corpo decida por si

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Em poucos minutos, aquilo que anos de agenda nunca conseguiram parar, o corpo parou. Nesse dia tinha seis reuniões marcadas. Nenhuma se realizou. E, no entanto, a empresa continuou de pé.

Era um amigo meu. Um amigo que considero um irmão. A notícia deixou-me profundamente abalado. Mas deixou-me também uma pergunta que não consigo afastar: quantos de nós continuamos a viver como se o nosso corpo fosse imune ao ritmo que lhe exigimos?

Há uma verdade que muitos líderes preferem ignorar: quase tudo continua a funcionar sem nós. O que não continua é a nossa vida, se adiarmos indefinidamente o cuidado com ela.

Em todos os aviões, a instrução é a mesma: em caso de emergência, coloque primeiro a sua máscara de oxigénio antes de ajudar quem está ao seu lado. Ninguém questiona esta regra a dez mil metros de altitude. Estranhamente, é uma das primeiras que esquecemos quando regressamos a terra.

Cuidar de nós não é egoísmo. É responsabilidade. Um líder exausto não decide pior apenas para si. Decide pior para todos os que dependem das suas decisões. O desgaste transfere-se para as equipas, para o ambiente de trabalho e para a própria organização.

Em Portugal, cerca de 25 mil pessoas são internadas anualmente devido a AVC. São quase 70 por dia. Os sinais são conhecidos: dificuldade na fala, desvio da face e falta de força num braço. Os três “F”. Perante qualquer um deles, a decisão é ligar imediatamente para o 112. Cada minuto conta: a chegada atempada ao hospital permite tratamentos que podem reduzir significativamente o risco de morte ou incapacidade grave.

O problema já não é falta de informação. É a ilusão de que, connosco, acontecerá mais tarde. Ou nunca.

Nas empresas, falamos de continuidade de negócio, gestão de risco, planos de sucessão e sustentabilidade. Preparamo-las para quase tudo, menos para uma possibilidade muito real: o líder deixar, de um momento para o outro, de conseguir liderar.

Talvez esteja na altura de criar um novo indicador de boa governação: o Índice de Sustentabilidade do Líder.

Medimos a sustentabilidade financeira, operacional e ambiental, mas raramente a de quem toma as decisões mais importantes. Sono, stress, exercício, acompanhamento médico e indicadores básicos de saúde não são apenas assuntos privados. A saúde de quem lidera é também um ativo estratégico da organização.

Conheço líderes que sabem de memória os rácios financeiros, as vendas e o calendário fiscal das suas empresas, mas desconhecem os valores da própria tensão arterial e adiam exames durante anos.

Talvez o próximo relatório de gestão devesse incluir um indicador que não aparece nas demonstrações financeiras: a sustentabilidade do próprio líder.

Há reuniões que podem esperar. Um AVC nunca espera.

Ao meu amigo, desejo a recuperação mais completa possível. Aos restantes deixo uma pergunta: se amanhã o seu corpo decidisse parar, quanto tempo demoraria a empresa a reorganizar-se? E quanto tempo demoraria a sua família a recuperar da sua ausência?

Antes de liderar os outros, há uma responsabilidade maior: continuar cá para o fazer.

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