Anatomia de uma capitulação

André Franqueira Rodrigues

Advogado, eurodeputado pelo PS e membro da Comissão de Defesa do Parlamento Europeu

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Existe um tipo de sedução política que a história conhece bem. Não é a sedução do argumento, nem a da visão. É a da rutura. A do homem que chega e diz, em voz alta, o que os outros sussurram; que parte a loiça e chama a isso coragem; que confunde a brutalidade com autenticidade e o cinismo com lucidez. Eric Hoffer, o filósofo estivador que nos anos 50 dissecou a anatomia dos movimentos de massas em The True Believer, percebeu-o antes de quase todos: os grandes movimentos populistas não se constroem sobre programas, mas sobre ressentimentos. Não prometem um futuro, prometem um inimigo.

Este texto é sobre um homem. Mas é, antes de mais, sobre o que a admiração por esse homem revela. 

Comecemos pela linguagem, porque é sempre pela linguagem que se começa. 

Em plena campanha eleitoral, este homem descreveu imigrantes como pessoas que “envenenam o sangue” do seu país. Uma escolha deliberada de um vocabulário com genealogia precisa, documentada, que atravessa as páginas dos capítulos mais negros da História, antes de reaparecer, décadas depois, neste novo século, que julgávamos ter aprendido. 

Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo, foi clara, como raramente a filosofia política consegue ser: o terror não começa nos campos, começa nas palavras. Começa na normalização progressiva do que deveria permanecer inominável. 

Em reunião com senadores do seu próprio país, referiu-se a nações africanas e caribenhas com uma expressão que os jornais de referência ainda hoje reproduzem entre aspas e com desconforto visível. “Países de merda”, disse. Sem hesitação, sem diplomacia, sem consequência política duradoura. 

Tocqueville, que percorreu a América no século XIX com aquela mistura rara de admiração e apreensão, que só os grandes observadores conseguem sustentar, advertiu que a democracia liberal transporta em si a semente da sua própria degradação, que a tirania moderna não chegaria com botas e correntes, mas com o aplauso das multidões e a erosão silenciosa das normas que ninguém, num dia normal, repara que existem até ao momento em que já não existem. A expressão era nova. O mecanismo era antigo. 

Quando múltiplas mulheres o confrontaram com acusações de assédio sexual, respondeu com a placidez serena de quem nunca conheceu a dúvida sobre o próprio poder: “Quando és famoso, podes fazer o que quiseres.” Tornou-se história. E não impediu a sua eleição, nem a primeira, nem a segunda vez. 

Maquiavel, tão frequentemente invocado para justificar o pragmatismo político, escreveu n'O Príncipe que o governante prudente deve, pelo menos, aparentar virtude, mesmo quando não a possui. Este homem foi mais longe: dispensou até a aparência e saiu impune. O que diz mais sobre o estado da República do que sobre o caráter do homem. 

Os testemunhos publicados por ex-colaboradores compõem um retrato de uma consistência inquietante. Chamou “idiotas” e “parvos” aos seus aliados mais próximos. Descreveu os seus generais como “os piores do mundo”. Qualificou o seu próprio vice-presidente como traidor, não por deslealdade ao partido, não por ambição pessoal, mas por ter cumprido a Constituição que ambos juraram defender. Hoffer voltaria aqui a ter razão: quando os inimigos externos escasseiam, o movimento devora os seus. É uma lei tão antiga quanto os primeiros impérios.

Durante uma pandemia que ceifou mais de um milhão de cidadãos do seu próprio país, sugeriu ao vivo, diante das câmaras do mundo inteiro, que injetar desinfetante poderia constituir uma solução terapêutica. Minimizou a gravidade da doença durante meses decisivos.

Umberto Eco, no seu ensaio Ur-Fascismo, incluiu a rejeição do pensamento científico e a exaltação da ação sobre a razão entre os traços constitutivos do que chamou o “fascismo eterno”, esse fascismo de rostos sempre renovados, mas de gestos sempre reconhecíveis, que regressa em cada geração com um vocabulário diferente, mas com uma mesma e idêntica essência.

Perdeu uma eleição. E durante semanas recusou-o. Sem provas, sem evidências, sem outra sustentação que não a repetição, alimentou teorias de conspiração que chegaram a incendiar, literal e simbolicamente, o coração da sua democracia. Os seus apoiantes invadiram o Parlamento. Tentaram interromper pela força aquilo que desde a Antiguidade Clássica distingue a República da tirania: a transferência pacífica do poder, esse rito aparentemente banal que é, na verdade, a fundação de tudo. Cícero sabia-o. Madison sabia-o. Jefferson sabia-o. Este homem observou tudo na televisão, durante horas, sem intervir. 

Chamou “inimigos do povo” à imprensa livre. A expressão não é sua. Curiosamente é de Lenine, que a usou, e de Estaline, que a aperfeiçoou, e que o século XX transformou numa das marcas mais sinistras da linguagem do poder absoluto. Classificou juízes como parciais com base na sua origem étnica. Prometeu vingança contra adversários políticos não como arrebatamento de campanha, mas como plataforma de governação, como programa. Propôs muros. Abandonou aliados históricos. Apertou a mão a ditadores com a mesma facilidade com que virou as costas às democracias que, durante 80 anos, ergueram pacientemente, tijolo por tijolo, a arquitetura frágil e preciosa da paz europeia. Essa paz que a geração de 1945 comprou ao preço que todos sabemos e que esta geração parece ter esquecido.

Karl Popper, que conheceu de perto o que acontece quando as democracias adoecem, escreveu que a sociedade aberta não perece por assalto externo, mas sim por capitulação interna. Quando aqueles que deveriam ser os guardiões das suas instituições começam, em nome do pragmatismo eleitoral ou da conveniência do momento, a tolerar o intolerável, a normalizar o anormal, a aplaudir o que deveriam condenar.

Este homem chama-se Donald Trump. É o atual presidente dos Estados Unidos da América.

E a questão que fica suspensa no ar e a que merece resposta direta, sem rodeios, sem a cobardia do silêncio estratégico é dirigida a todos os partidos, líderes e comentadores da direita portuguesa e europeia que o aplaudem, que se fotografam a seu lado, que adotam o seu léxico e imitam o seu gesto:

É com esta a figura que se identificam? É este o modelo de democracia que professam defender? É este o aliado de que a Europa precisa, a mesma Europa que nasceu das cinzas de exatamente tudo aquilo que este vocabulário, esta lógica e este desprezo pelas instituições já fizeram uma vez, não há assim tanto tempo, a este mesmo continente?

Arendt, Popper, Tocqueville, Eco, Hoffer. Todos pensadores de tradições diferentes, de épocas diferentes, de temperamentos diferentes, mas que convergem numa advertência comum: as democracias não morrem de uma vez. Morrem aos poucos, aplaudidas pelos que deveriam protegê-las.

A resposta que derem a essa pergunta não nos dirá nada que já não saibamos sobre Trump.

Dir-nos-á tudo o que precisamos de saber sobre eles.

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