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Um presidente dos EUA como Donald Trump e a atuação internacional dos Estados Unidos sob a sua Administração seria, se assumida por outras geografias e outras personagens, motivo de uma condenação estrutural e generalizada por todo o ocidente, ainda mais notória e intensa.

Trump, para além do mais recente folhetim persa que criou, ao boicotar negociações com uma intervenção militar para voltar a negociações em piores condições, conseguiu, em dois anos, afastar-se de parceiros decisivos no seu continente, como o Canadá, o México, o Brasil ou a Colômbia. Conseguiu indispor aliados naturais tão diversos como a Dinamarca, a Alemanha, a África do Sul ou a Austrália. Tornou a NATO, a organização internacional mais fiável e previsível das últimas sete décadas, num reality show de má qualidade. Destruiu a credibilidade dos EUA e a força moral que lhes restasse ao raptar um chefe de Estado, ao apresentar projetos imobiliários para um Estado estrangeiro sob ataque ilegal de um terceiro, ao afastar os Estados Unidos de contribuições para a saúde global, a cooperação internacional ou as alterações climáticas e ao censurar cientistas, professores e universidades norte-americanas, bem como ao expulsar os seus alunos estrangeiros.

Quando fala e quando age, consegue transformar de uma só vez o imperialismo russo, a soberba chinesa e a teocracia iraniana em momentos destacados de racionalidade, prudência e bom senso. Falar-se de vergonha alheia é atenuar sentimentos. Não terá havido outro momento da História em que se esperasse pela mudança do senhor do país mais forte do planeta com esta mistura tão inusitada de esperança e de agonia.

E, como é habitual em personagens deste tipo, escolhe para o acompanhar uma turma que medra no nepotismo e na subserviência basal. Pensar-se que, apesar dos tiques teocráticos e de monocultura política do seu regime, os Estados Unidos chegaram a este ponto de exercício do poder, e sem grande dissenso consequente, é confrangedor. Um excelente alerta para o que aí vem, em força. A partir do momento em que nem a sabedoria, nem a prudência política, nem o pudor valem o que seja e, pelo contrário, é a boçalidade e a manifestação exacerbada dos instintos mais primários a serem incensadas, está o caminho aberto para a irrelevância da malha de direitos e de solidariedades que levaram séculos a concertar. Quer dentro de cada Estado, quer entre estes.

Podia ser um pouco irritante nos anos 60 e 70 a superioridade moral dos marxistas, nas suas distintas declinações. Podia ser francamente aborrecida a discussão de sociólogos sobre sociais-democracias, trabalhismos e terceiras vias dos anos 90. Ou os debates ideológicos sobre mais ou menos regulação, maior ou menor peso do Estado. Tudo isso estaria muito bem... e interessaria e seria compreendido por 20% dos eleitores. Mas também não seria preciso este change the game tão radical... O que diferencia o exercício do poder da mera demonstração da força é a capacidade de autolimitação do primeiro e a sua necessidade de se justificar e legitimar de forma racional. É isso que se está a perder.

Quando os eleitores deixarem de escolher opções no exercício do poder e apenas escolherem intensidades de uso da força, saberemos que acabou.

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