A 7.ª edição do Operafest Lisboa e Oeiras fechou no Teatro Camões, no passado dia 11 de Setembro, com o concurso de Ópera contemporânea Maratona Ópera XXI, com a apresentação de duas óperas, em estreia absoluta, de dois jovens compositores, selecionados em novembro de 2024 e a quem foram atribuídas bolsas de composição – cada uma com um libreto original. Coube ao dramaturgo Miguel Castro Caldas imaginar as histórias que seriam musicadas. Em A Vida Secreta de Coisa, uma Inteligência Artificial humanoide chamada Eve, prestes a ser desativada, apaixona-se por uma bailarina. Em Último Andamento, um casal adúltero, apanhado em flagrante pelo marido traído, vê-se consumido pelo movimento final da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn.
Francisco Lima da Silva, cujo humor negro foi apreciado na sua primeira ópera, Rigor Mortis (2023), retorna a um tom farsante para retratar o despertar emocional de Eve, ao mesmo tempo que questiona os riscos de um mundo onde a IA consegue emular emoções humanas – o primeiro passo rumo a uma grande substituição digital?
A sua música, sem recorrer a uma composição binária que opusesse humano a humanoide, combina elementos díspares, desde um ensemble que soa a grande orquestra com nuances puccinianas até modulações americanas repetitivas e inflexões percussivas características do rock. A escrita vocal segue o mesmo princípio de hibridização, com a particularidade de conceder à voz de Eve os momentos mais melódicos de sua partitura, enquanto as personagens humanas compartilham diálogos mais teatrais, interpretada por Filipa Portela, e Célia Teixeira, no papel da bailarina e coreógrafa Marlene, exploram o tema da geminação. As mesmas vozes virtuosas e cristalinas, a mesma aparência em figurinos emprestados do guarda-roupa de David Lynch ou Pedro Almodóvar.
Em contraste, as personagens masculinas, todas vestidas de preto, personificam uma Humanidade em desordem: o inventor oprimido pelas suas criações – o Johnson de Diogo Oliveira, com a sua inegável presença de palco –, o marido ciumento que acaba por perder a mulher para a humanoide – Gabriel Neves do Santos, o tenor nervoso, por vezes levado ao limite – e o atrapalhado diretor da escola de ballet – André Soares, sempre certeiro nas suas intervenções cómicas.
Em segundo plano, nesta comédia de costumes na era da Inteligência Artificial, uma mordaz sátira social revela a situação dos taxistas de aplicativos, os novos rostos da escravidão da Humanidade pela sociedade digital. Isso ajuda a amenizar o final agridoce, no qual o humanoide escapa, por pouco, de ser desconectado... apenas para se vingar da Humanidade?
Em Último Andamento, o compositor Pedro Laranjeira Finisterra oferece uma nova e original variação sobre o tema atemporal do triângulo amoroso. Ao regressar inesperadamente ao seu apartamento lisboeta, onde aluga um quarto por meio de uma plataforma turística, Leonardo apanha em flagrante a sua esposa Mariana nos braços do inquilino, Maurice.
Enquanto a esposa adúltera tenta minimizar a situação, o amante tenta fugir, mas um fenómeno que remete para O Anjo Exterminador, de Buñuel, parece impedi-lo. Forçados a coexistir no espaço, agora tóxico, do apartamento, as três personagens ver-se-ão gradualmente confrontadas com os seus duplos metafóricos: os músicos da Sinfonia n.º 45 de Joseph Haydn, Do Adeus (1772).
Como sabemos, em protesto contra o príncipe Esterházy, que prolongara a estadia da orquestra no seu palácio de verão além do razoável, Haydn encena a partida gradual dos seus músicos no Adagio final desta sinfonia. A mise en abyme concebida por Miguel Castro Caldas impulsiona a trama em direção ao teatro do absurdo, mas a dramaturgia, mesmo ao longo de uma hora, rapidamente atinge os seus limites.
Embora a encenadora Rita Calçado Bastos crie imagens poderosas para simbolizar essa sobreposição de épocas, particularmente quando páginas da partitura caem do teto, como neve, e cobrem o palco de branco, a questão central parece um pouco frágil demais para se conseguir libertar do literal: quando o amor acaba, quando é que é hora de partir, quando é que é hora de ficar e o que é que acontece depois?
Como prova da dificuldade de ultrapassar esse questionamento, o segundo ato vê as nossas três personagens metamorfosearem-se em musicólogos que comentam a sinfonia de Haydn, tomando o público como testemunha…
Num estilo parlando-cantando que luta por cativar o ouvinte, Filipa Portela exibe a beleza do seu timbre de soprano, e Diogo Oliveira compensa uma interpretação um tanto estereotipada com uma projeção vocal convincente.
Uma nova metáfora surge na ária final, cantada a cappella, já que a orquestra está agora vazia: a da cidade de Lisboa, despovoada pela gentrificação e pelo turismo desenfreado.
Esta canção de amor desesperado é uma corajosa demonstração de virtuosismo, mas arriscada, que se destaca na estrutura geral da obra, especialmente porque a voz áspera de Gabriel Neves do Santos luta por lhe fazer justiça.
Mas não nos esqueçamos que, tal como A Vida Secreta de Coisa, esta partitura permanece uma obra em progresso, sujeita a evolução e revisões. Tal como está, já demonstra o virtuosismo com que Finisterra, num espírito semelhante ao de Luciano Berio, consegue apropriar-se de material antigo e remixá-lo com uma sensibilidade contemporânea – tal como já fizera com um ¡¿Lamento?! inspirado em Purcell.
Visivelmente à vontade com os saltos estilísticos propostos pelos dois compositores, os músicos da Orquestra Operafest Lisboa e Oeiras, sob a direção de Diogo Costa, oferecem uma prestação de um entusiasmo lúdico, permitindo que esta nova edição do Operafest Lisboa terminasse de forma irrepreensível.
Nota: No final da noite, um júri internacional composto por uma bailarina/coreógrafa (Olga Roriz), dois compositores (Henk van der Meulen e António Chagas Rosa), um dramaturgo (Wout van Tongeren) e uma realizadora de cinema (Rita Azevedo Gomes), atribuiu o Prémio Maratona Ópera XXI - Novas Óperas a Francisco Lima da Silva.
Première Loge – L’art lyrique sans un fauteil