Para o David Ferreira. O título deste livro coloca, desde logo, o leitor em face de uma instigante santíssima trindade da poesia e da arte: Pedro Homem de Mello (1904-1984), Amália Rodrigues (1920-1999) e David Mourão-Ferreira (1927-1996). Uma trindade das artes, posto que estas três personalidades de proa da cultura portuguesa do século XX (sendo Amália, de entre as três, uma presença de recorte internacional), entre si, tenham trocado cumplicidades várias, afinidades diversas, com uma tónica especial no que aos cruzamentos entre a poesia e a música respeitam.O próprio Pedro Homem de Mello se definirá um dia com modéstia: “O nosso tributo de Poeta resume-se, apenas, à técnica e a factores ligados à música, à dança e ao convívio com o povo”, somando, a estas palavras humildes, outras: “[a minha poesia] é a revelação daquilo que tantas vezes o seu autor ignora.” Logo, a criação poética é, em Homem de Mello, vista pelo prisma da criação que está para além da vontade autoral e se cumpre plenamente como expressão de um eu que tem, da poesia, a certeza de que ela é um acontecimento, uma forma de epifania.O mesmo se poderá dizer de Amália e de David que, vistos pelo autor deste livro, não podem ser compreendidos se desvinculados desse sendal de mistério que a poesia sempre tem.Não é de somenos começarmos por aqui, agora que lemos este livro de Rui Martins Ferreira, posto que o autor, também ele um amante da poesia e da música, um conhecedor profundo de Amália e dos mistérios e fascínios do Fado como expressão poético-melódica, igualmente tenha o cuidado de, em quatro capítulos, percorrer, de forma atenta e harmoniosa, os vários cambiantes das poéticas de dois autores centrais da nossa poesia de novecentos. Esse percurso de leitura faz-se em permanente viso intertextual que depende do modo como, criticamente, Rui Martins Ferreira igualmente percebe a apreensão dessa poesia por parte de uma artista como Amália.A tese que é agora – e bem! – transformada em livro tem uma estrutura clássica que se orienta do geral para o particular. Abre com O Fado Tradicional de Amália Rodrigues, a que se segue uma erudita e completíssima recensão das relações entre o fado-canção e a poesia (O Fado Tradicional e a Poesia), com aproximações em close reading a composições particularmente consideradas (O Caso de Uma Casa Portuguesa e O Caso de A Rosa Enjeitada). O enfoque é, como digo, original, criativo, por demais enriquecedor, porquanto não estamos na presença de uma tese de doutoramento que se escore num jargão teórico que impede a livre fruição dos poemas e sua explicitação. Ou, como tantas vezes acontece, que se esconda por detrás de um hermetismo que, à custa de inapreensível, muitos julgam inteligentíssimo. Não, o estilo ensaístico de Rui Martins Ferreira é denso, mas claro, directo, expositivo e de largo alcance. Nada há aqui que bloqueie o nosso acesso ao laboratório amaliano-oulmaniano (desculpe-se este neologismo quiçá rebarbativo!) da recriação poética do lirismo davidiano e do poeta de O Rapaz da Camisa Verde.. Por isso, lucidamente, considera Rui Martins Ferreira: “A especificidade desta investigação situa-se na articulação entre um ramo da produção literária: a poesia e o fado, em particular o fado interpretado por Amália Rodrigues. São cinco as questões de estudo:como se explica o interesse de Oulman pelo fado e a sua visão da poesia no fado, um género musical especificamente português (EGEAC, 2007, 2009);em que medida a colaboração dos poetas, Oulman e Amália resultou numa rutura com o fado tradicional (Elliott, 2010; Fonseca, 2011);qual a importância da poesia erudita na evolução dos conteúdos para fado;como foi possível proceder ao aliciamento desse público e, 5) de que modo as caraterísticas, opções e atitude pessoais de Amália contribuíram para a reinvenção e evolução do fado.A obra poética de DMF tem sido objeto de vários estudos (Moura, 1977; Barreiros, 1979; Garcia, 1980; Belchior, 1997; Pereira, 1997; Brito, 1998, 2002; Cortez, 2009, Marques, 2016). Porém, nunca foi abordada a temática do fado, nem investigado o modo como algumas das facetas da poética davidiana confluem, se harmonizam e ganham uma nova dimensão, ao serem transportadas para o universo criativo de Amália Rodrigues. Quanto a PHM, tem sido um poeta injustamente esquecido. Excetuando os textos de Régio (1942), Lopes (1972) e Gonçalves (2009), não se encontram estudos académicos de referência acerca da sua obra ou sobre a presença da sua poesia no fado amaliano. (…)” (p.7)É, como se depreende, um livro ambicioso. Mas é, deve dizer-se, um livro de fino recorte científico e a que a ambição empresta as luzes da justiça compreensiva. Ou, como gostaria de dizer o próprio David Mourão-Ferreira: do que se trata aqui é de compreender a obra literária na sua dimensão poligonal. E a música de Amália e de Alain Oulman completam, por assim dizer, esse polígono literário. Por isso mesmo é que não deve o leitor deste estudo espantar-se que Rui Martins Ferreira se reclame de uma atenção a questões formais (logo quando historia o Fado como forma poético-musical adentro um património português com especificidades populares), porque é justamente a partir do plano de um saber técnico-compositivo que deve entender-se a própria história do Fado.Certas páginas são mesmo de riquíssima penetração crítica e cultural, posto que à análise formal, o autor acrescente uma fina sensibilidade que levanta o véu quanto a certos momentos de criação poética e/ou musical (é o caso dos capítulos subordinados ao fazer do poema na sua relação com o fazer musical, o modo como Amália tornava suas as palavras dos poetas, por ela própria dominar questões de poética). Análise – vale dizer – que cruza um saber estilístico com uma compreensão das subtilezas políticas de uma época definidora de certa mentalidade consequente com o Estado Novo, especialmente quando Rui M. Ferreira se debruça sobre momentos contextuais de certos fados que tiveram eco político (Fado de Peniche, de David), mostrando bem quanto a voz de Amália e dois contemporâneos maiores da literatura do tempo não foram, apesar de participarem da cultura da época, coniventes com um regime opressivo.Caso raro, pois, de interpenetração da literatura com a História das Mentalidades, Rui Martins Ferreira não esquece uma das lições perenes desse estudioso do fado, Rui Vieira Nery e desse poeta-crítico, Vasco Graça Moura, ambos atentos leitores das relações intertextuais entre palavra e música, ambos modelos de investigação. Que lição? Esta: não se enriquece uma leitura sem que ela nasça da faculdade intuitiva e neste particular este A Poesia do Encontro, versando sobre Amália, David e Homem de Mello, atinge um altíssimo fim: disponibilizar numa linguagem clara, simples, mas sedutora e rigorosa, um objecto de cultura que todo e qualquer um pode ler.. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico.