Aljubarrota 1385: Liderança e Inovação que inspiram o Exército do Século XXI

Eduardo Mendes Ferrão

General, Chefe de Estado-Maior do Exército

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Evocar Aljubarrota é fazê-lo com profundo respeito e enorme sentido de responsabilidade, perante um lugar que é, por direito próprio, sagrado para a memória da Pátria.

O Campo de São Jorge, o seu património e a sua identidade, constituem um espaço privilegiado de preservação da nossa memória coletiva. Evocar Aljubarrota, é renovar a memória viva de um dos momentos mais radiosos e decisivos da nossa história coletiva. Aljubarrota não é apenas a vitória de um dia. É um passo no processo de transformação do instrumento militar português. Representa um dos muitos momentos em que a hoste régia soube reinventar-se, desafiando, com sucesso, os paradigmas dominantes da guerra do seu tempo e abrindo caminho a uma forma diferente de pensar, preparar e conduzir o combate.

Essa transformação não nasceu por acaso. Foi obra de uma geração extraordinariamente jovem que recusou limitar-se a reproduzir o passado. Poderia ter seguido as lógicas das grandes linhagens ou cedido aos aliciamentos da Coroa de Castela. Escolheu outro caminho. Teve a lucidez de perceber que existia um sentimento nacional que ultrapassava os interesses das elites e compreendeu que servir Portugal exigia coragem para inovar sem romper com aquilo que merecia ser preservado.

A Crise de 1383-1385 marcou, assim, o nascimento de um novo ciclo. Um reino que ainda procurava afirmar a legitimidade do seu monarca encontrou, em Aljubarrota, muito mais do que uma vitória militar: encontrou a confirmação de um projeto político e a confiança para construir o futuro. O Exército que combateu naquela tarde de agosto ainda utilizava muitos dos meios tradicionais, mas revelou uma capacidade excecional para fazer diferente. Em inferioridade numérica, venceu porque soube interpretar melhor o ambiente em que combatia.

Contudo, o mais notável aconteceu depois da batalha. Entre 1385 e 1415, em apenas três décadas, aquela hoste transformou-se numa força expedicionária capaz de projetar poder para o Norte de África, conquistar Ceuta e iniciar uma expansão que mudaria a História de Portugal e do mundo. No mesmo ano em que ingleses e franceses travavam a Batalha de Agincourt, Portugal preparava uma operação anfíbia de grande escala. Em determinados domínios da organização militar e da projeção estratégica, o Reino antecipava soluções que marcariam profundamente a sua época.

Essa evolução não significou rejeitar tudo o que existia. Pelo contrário. A inovação fez-se preservando aquilo que continuava a ser útil. Os corpos de besteiros do conto, criados e aperfeiçoados desde o reinado de D. Dinis, mantiveram toda a sua relevância durante décadas, coexistindo com os primeiros espingardeiros, até que estes acabaram por assumir naturalmente o protagonismo. Também a guarda régia não desapareceu, foi reforçada. E a experiência acumulada durante séculos de guerra na Reconquista foi adaptada às novas realidades das praças do Norte de África.

É precisamente essa capacidade de transformar sem destruir que constitui uma das maiores lições de Aljubarrota. É também essa aptidão, tão característica dos portugueses, para ousar sem perder o sentido da realidade, conciliando ambição com prudência e inovação com continuidade, que importa recuperar nos dias de hoje.

Hoje, também o Exército vive um tempo de mudança. Sabemos que a transformação não consiste em substituir indiscriminadamente o passado pelo futuro. Consiste em integrar novas capacidades sem desperdiçar aquilo que continua a produzir valor.

Assim, as forças ligeiras, que constituem uma das mais sólidas tradições militares portuguesas, são um património operacional que importa continuar a valorizar. No plano das forças médias, tal como os besteiros coexistiram com os espingardeiros, também as viaturas PANDUR coexistirão com as futuras viaturas BOXER enquanto principal meio da manobra terrestre. Do mesmo modo, as forças pesadas continuam a ser indispensáveis nos conflitos de alta intensidade, razão pela qual mantemos essa capacidade através dos carros de combate e da participação portuguesa na Eslováquia.

As circunstâncias são diferentes. O Estado do século XXI pouco tem em comum com um reino da extremidade ocidental da Europa no final da Idade Média. Mas os mecanismos da transformação permanecem surpreendentemente semelhantes. Em ambos os casos, foi necessário compreender o mundo envolvente, identificar as novas ameaças, adaptar a organização militar e utilizar, de forma inteligente, os recursos disponíveis. Foi isso que fizeram D. João I, o Condestável Nuno Álvares Pereira e a Ínclita Geração. Não romperam com o passado; souberam reinterpretá-lo à luz das exigências do seu tempo.

É por isso que, enquanto comandante do Exército, encontro em Aljubarrota uma fonte permanente de inspiração. Também nós temos hoje um rumo claramente definido.

A Força Terrestre 2045 constitui um marco importante desse percurso, mas não representa um ponto de chegada. A transformação não termina em 2045. É apenas mais uma etapa de um processo contínuo, porque um Exército que pretende permanecer na vanguarda nunca pode considerar concluída a sua evolução.

Foi essa atitude que permitiu à Segunda Dinastia sustentar um império cuja dimensão ultrapassou, em muitas dezenas de vezes, a do território europeu onde nasceu Portugal. Foi essa capacidade para encontrar multiplicadores de força, adaptar-se às circunstâncias e inovar permanentemente, que permitiu ao país afirmar-se numa escala global durante séculos.

Aljubarrota recorda-nos precisamente isso. Não celebra apenas a coragem dos poucos que aqui combateram, nem apenas o brilho de uma vitória militar. Celebra uma forma de pensar. Celebra a iniciativa, a capacidade de adaptação, o empreendedorismo, a preparação rigorosa e a determinação para vencer, apesar das dificuldades.

Portugal continua a ser, na sua essência, o mesmo país que aqui se afirmou. A História demonstra que, quando sabemos interpretar o nosso tempo, quando temos o arrojo de mudar, preservando aquilo que verdadeiramente importa, e quando colocamos o interesse nacional acima de qualquer outra consideração, somos capazes de alcançar resultados que parecem improváveis.

Foi assim em Aljubarrota. É esse o exemplo que devemos continuar a seguir.

A presença dos militares portugueses no Campo de São Jorge é a expressão viva da continuidade histórica do Exército Português e a prova de que o espírito de Aljubarrota permanece ativo na nossa instituição. Os Infantes de hoje são os legítimos herdeiros daqueles que, com coragem e sacrifício, afirmaram a independência de Portugal e abriram caminho a uma visão estratégica que moldou o futuro da Nação. Cabe-lhes dar continuidade a esse legado, enfrentando os desafios contemporâneos com a mesma determinação, disciplina e lucidez.

A modernização tecnológica em curso, a qualificação dos nossos militares e o reforço da capacidade operacional não são apenas instrumentos de progresso: são a forma atual de honrarmos aqueles que aqui tombaram.

Prestar homenagem aos combatentes de Aljubarrota é também assumir o compromisso solene de manter o Exército como uma instituição credível, moderna, altamente motivada e permanentemente pronta a servir Portugal. Uma força que honra o seu passado, mas que mantém os olhos postos nos desafios tecnológicos e operacionais do amanhã.

É, por isso, devido um profundo reconhecimento a todos os Infantes que, de norte a sul do país e nas nossas missões além-fronteiras, cumprem a sua missão com brio, disciplina e abnegação. O seu trabalho diário assegura que a chama de Aljubarrota continua bem viva no coração de Portugal.

Inspirados pelo exemplo intemporal de D. João I e de D. Nuno Álvares Pereira, continuaremos a marchar firmes na defesa da nossa Liberdade e da nossa Soberania.

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