Alexandre Nevsky foi um príncipe e herói russo do século XIII, canonizado em meados do século XVI pela Igreja Ortodoxa russa e tornado famoso em 1938 por Sergei Eisenstein.Eisenstein, com Dziga Vertov e Vsevolod Pudovkin, integrou o núcleo duro de grandes realizadores do cinema soviético da primeira metade do século passado, um cinema que obedecia declaradamente a uma apertada agenda política – de resto, como o dos regimes “iliberais” de direita de então.Lenine sublinhara a importância do cinema como arma política; e Mussolini ia-lhe na peugada, apoiando a indústria cinematográfica italiana e usando a Sétima Arte como instrumento de propaganda. O mesmo faria a Alemanha hitleriana, com os épicos de Leni Riefenstahl – O Triunfo da Vontade, de 1935, sobre o Congresso de Nuremberga de 1934, e Olympia, de 1938, sobre as Olimpíadas de Berlim de 1936.Por cá, durante o mandato de António Ferro no Secretariado da Propaganda Nacional e no Secretariado Nacional de Informação, também tivemos alguns filmes políticos – A Revolução de Maio, de António Lopes Ribeiro, uma apologia anticomunista do Estado Novo; e Chaimite, de Jorge Brum do Canto, uma glorificação das guerras de África dos finais do século XIX. Depois, o regime salazarista optou pela comédia urbana ligeira, do tipo A Canção de Lisboa ou O Pai Tirano.A Rússia comunista também não deixava de recorrer a comédias ligeiras, mas, paradoxalmente, para uma potência internacionalista, no cinema mais marcadamente político centrava-se em episódios revolucionários ou em figuras exemplares, históricas e nacionais.Eisenstein dirigira, em 1925, O Couraçado Potemkine e, em 1928, Outubro, filmes ligados à tradição revolucionária russo-soviética. Alexandre Nevsky, de 1938, era já um filme sonoro, com música de Prokofiev, o grande compositor russo.O que singulariza este filme de Eisenstein, a muitos títulos notável, é que dificilmente encontramos, mesmo entre as produções do fascismo italiano e do hitlerismo alemão, uma narrativa e uma ética mais nacionalistas e mais identitárias e populares do que as de Nevsky… ao serviço de um regime assente no internacionalismo proletário.Alexandre era príncipe de Novgorod, de Vladimir e de Kiev. Novgorod era, no séc. XIII, como que uma república urbana e Nevsky governou-a por períodos intermitentes. Quando, em Abril de 1242, enfrentou os Cavaleiros Teutões na Batalha do Gelo, já tinha derrotado os invasores suecos. E foi através da negociação com os mongóis que conseguiu manter a tranquilidade a Leste.Diga-se que, em Abril de 1938, o nacional-socialismo já governava a Alemanha havia cinco anos; talvez por isso os “alemães” do filme de Eisenstein, os Cavaleiros Teutónicos, apareçam como crentes fanáticos e odiosos, quase demoníacos, misto de inquisidores espanhóis e de PIDE de filme português pós-74; e a fazer coisas horríveis, como atirar crianças vivas para a fogueira, enquanto murmuram cânticos pios. Em contrapartida, os russos são patriotas, moderadamente religiosos e bastante divertidos, como a parelha Vasili Buslai e Gavrilo Oleksich, que disputa o amor de Olga Danilova. E Nevsky, interpretado por Nikolay Cherkasov – o actor favorito de Estaline, que também vai protagonizar Ivan, o Terrível – é um herói em grande.É difícil encontrar fita mais patriótica, mais ligada à defesa da Terra e dos Mortos do que esta de Eisenstein, realizada na pátria do internacionalismo proletário – ideal menos tangível e apelativo do que “as raízes” ou a “alma russa”, às quais, na vindoura “Grande Guerra Patriótica”, o pragmático Estaline não deixaria de apelar. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia