Ainda sobre a evolução do sistema capitalista

António Rebelo de Sousa

Economista e professor universitário

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De uma forma algo redutora, para SHILLER, “o problema do comunismo é o comunismo, enquanto que o problema do capitalismo está nos capitalistas”, admitindo o autor que tem vindo a verificar-se uma evolução na função objectivo dos gestores mais orientada, em muitos casos, para o curto prazo e para o que alguns designam de high multiples.

Um aspecto que importa salientar é a ausência de transferência informativa e, por conseguinte, de uma condição necessária à eficiência dos mercados financeiros, conforme salientam Sanford GROSSMAN e Joseph STIGLITZ.

Em boa verdade, os gestores de investimentos podem ganhar mais aplicando em activos de elevado risco, enquanto - com base em boas informações dos próprios, que não necessariamente do público – não existir uma percepção clara de um risco muito elevado associado às opções de investimento efectivadas, saindo os ditos gestores dessas aplicações antes dos riscos se manifestarem para o cidadão comum.

Se é verdade que a imagem dos banqueiros foi, durante muito tempo, melhor do que a dos gestores de investimento (sendo tidos como fornecedores de rendimento seguro e com liquidez), registou-se alguma mudança no decurso dos últimos anos, apesar de não ter sido a banca convencional a principal responsável pela crise de 2007/2008, mas antes os shadow banks.

Apesar dos riscos envolvidos em alguns novos instrumentos financeiros (incluindo a titularização/ securatização, a partir dos RMBS-Residential Mortgage Baked Securities e dos títulos de dívida colateralizada), registou-se, ao longo de muitas décadas, uma democratização da actividade bancária, que o mesmo é dizer, o acesso ao crédito bancário por parte de segmentos não privilegiados da população. Por outro lado, importa salientar que os mercados de derivados, com as suas insuficiências, ajudaram, todavia, a superar ineficiências económicas no sistema financeiro capitalista, conforme, aliás, Kenneth ARROW procurou explicar.

Já quanto aos reguladores, se é verdade que autores como Harry MARKOPOLOS afirmam que os reguladores estatais podem ser surdos face a provas de excessos financeiros quando o acusado aparenta legitimidade e prestígio, também não se apresenta menos verdade que autores como o próprio SHILLER elogiam o papel desempenhado por organizações auto-reguladas como, por exemplo, a FINRA nos EUA (Finantial Industry Regulatory Authorithy) e a NASD (National Association of Securities Dealers, activa entre 1939 e 2007).

Um outro aspecto a considerar tem que ver com o financiamento de bens públicos, os quais apresentam, como é sabido, as características da indivisibilidade, da impossibilidade de exclusão e da não rejeitabilidade, não sendo, em regra, fornecidos num sistema de mercado livre.

Importa reconhecer que o facto de o Estado dever entrar em linha de conta com a necessidade de adoptar uma certa flexibilidade na Administração de Recursos Públicos não significa, todavia, que não venha a ser necessário pensar-se em recorrer a políticas orçamentais mais activas, designadamente em futuras contracções económicas (sistema de políticas orçamentais mais reactivo).

Por fim, o sistema capitalista está longe de se apresentar inconciliável com o sucesso de organizações sem fins lucrativos, sendo certo que foi o próprio SCHUMPETER quem afirmou que, por exemplo, muitos hospitais sem fins lucrativos são o produto do capitalismo, porque o processo capitalista forneceu os meios e a vontade e, ainda, porque a racionalidade capitalista forneceu os hábitos mentais que foram desenvolvidos nesses mesmos hospitais.

Nem mais, nem menos...

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