Adeus ao Falcão

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Há aviões que são ferramentas e há aviões que são ideias. O F-16 foi sempre ambas as coisas, e por isso a sua retirada pesa mais do que a simples reforma de uma máquina. Ao substituir os Fighting Falcon, Portugal não muda apenas de plataforma: abdica de uma forma de pensar a guerra, precisamente quando essa forma volta a ter razão.

Para perceber o que se perde, é preciso recuar a John Boyd, talvez o pensador militar mais influente e menos conhecido do século XX. Piloto de caça excepcional, nunca comandou uma campanha nem escreveu um tratado, e ainda assim inspirou a moderna doutrina da manobra, influenciou gerações de oficiais e viu as suas ideias passarem do cockpit à gestão e à teoria da decisão. Boyd percebeu, antes de quase todos, que o combate aéreo não se decide apenas na potência ou no alcance, mas no tempo, no intervalo entre observar, decidir e agir. Quem percorre esse ciclo mais depressa entra no processo mental do adversário e quebra-lhe a coerência. Daí emergem a teoria da energia-manobrabilidade e o modelo OODA, mais tarde absorvido pela doutrina americana. Com a chamada Fighter Mafia, Boyd combateu a tendência para aviões cada vez maiores, mais caros e mais complexos. Não contra um modelo específico, mas contra uma lógica, a da acumulação de capacidades em detrimento da simplicidade. Em resposta, defendia um caça leve, ágil, relativamente barato e tacticamente dominante na sua função. O F-16 nasce dessa tensão, não como a sua expressão pura, mas como o seu compromisso possível.

Porque convém dizê-lo, o Falcon real nunca foi o Falcon ideal de Boyd. Ganhou peso, sensores, alcance e missões. Tornou-se multirole. Ainda assim, preservou o essencial, uma combinação rara de agilidade, custo controlado e elevada disponibilidade operacional. E é isso que o torna relevante hoje.

A questão, portanto, não é sentimental, é funcional. A missão central da Força Aérea Portuguesa continua a ser a defesa do espaço aéreo: policiamento, intercepção, prontidão permanente. Nesse contexto, um caça como o F-16 continua a oferecer uma relação particularmente eficiente entre desempenho e custo. O F-35, por contraste, foi concebido como plataforma de penetração furtiva, optimizada para ambientes altamente contestados e para a primeira vaga de conflito. Pode cumprir missões de QRA, e fá-lo, mas a um custo e com um nível de sofisticação que frequentemente excedem a necessidade.

Mais do que uma substituição de avião, o que aqui se observa parece ser a vitória de um paradigma, o da plataforma total. O F-35 concentra funções, caça, bombardeiro, sensor, nó de rede, com uma integração sem precedentes. Mas essa integração tem um preço, complexidade, custo e uma certa diluição da especialização. Onde o F-16 era um instrumento afinado para a manobra e a disponibilidade, o F-35 é um sistema concebido para dominar o espectro completo do combate. Não são respostas à mesma pergunta, e não é a do F-35 que Portugal faz todos os dias.

E é aqui que a realidade recente deixa de complicar e passa a clarificar. Da Ucrânia ao Golfo, o padrão dominante não é o da penetração furtiva, mas o da intercepção persistente, drones, munições vagantes, alvos de baixo custo e elevada frequência. Neste tipo de combate, não basta olhar ao custo relativo face ao drone, que penaliza qualquer caça. A diferença está no modo como se combate. Na intercepção de proximidade, repetida e exigente em manobra, um aparelho como o F-16, mais leve, mais ágil e mais disponível, é simplesmente mais adequado e mais sustentável do que uma plataforma optimizada para outro perfil de missão. O problema não é usar caças contra drones. É usar o caça errado, ao custo errado, para o tipo de combate que efectivamente se trava.

O futuro não pertence ao sistema que faz tudo. Pertence ao que faz o essencial, depressa, barato e em número.

Despedimo-nos do F-16 no momento em que a história lhe começa a dar razão. Boyd morreu em 1997 convencido de que tinha vencido a discussão. Talvez tivesse ganho. Só não contava que, 30 anos depois, a fôssemos comprar na mesma.

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