A adaptação poderá ser o maior desafio económico que Portugal enfrentará nas próximas décadas. O país necessita de um verdadeiro Plano Económico e Financeiro para a Adaptação Climática.A razão é simples. Mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente as emissões, uma parte das alterações climáticas já está instalada. Secas mais frequentes, ondas de calor mais intensas, aumento do risco de incêndios, erosão costeira, escassez hídrica e fenómenos meteorológicos extremos são hoje realidades que afetam a economia, a produtividade e a qualidade de vida. Eventos desta natureza levam a perdas de ativos, desemprego, inflação, aumento da despesa pública.O clima deixou de ser uma variável marginal e passou a ser uma restrição estrutural ao desenvolvimento económico. A disponibilidade de água condiciona a agricultura e a indústria. As ondas de calor afetam a produtividade laboral. Os incêndios destroem património natural e económico. As alterações nos regimes de precipitação influenciam os sistemas energéticos. O clima entrou definitivamente na economia.É precisamente por isso que a adaptação não deve ser encarada como uma política ambiental. Deve ser entendida como uma política económica.A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 reconhece a relevância do problema e alerta para os custos da inação. Contudo, não apresenta uma quantificação económica sobre os impactos esperados, nem dos benefícios associados às medidas de adaptação. Não sabemos qual o valor anual esperado das perdas económicas provocadas pelos riscos climáticos em setores como a Agricultura, o Turismo, as Pescas ou as infraestruturas. Não dispomos de uma estimativa consolidada dos custos acumulados que as alterações climáticas poderão representar para a economia portuguesa ao longo das próximas décadas. Não conhecemos o impacto potencial sobre o crescimento económico ou sobre as Finanças Públicas. Também não existe uma avaliação sistemática dos custos evitados através dos investimentos em adaptação. Sem esta estimativa de custos torna-se difícil que o Estado consiga justificar investimento no presente.Esta ausência de números não é um detalhe técnico. É um problema estratégico.O que não se quantifica dificilmente atrai investimento. Se Portugal pretende mobilizar recursos públicos e privados para a adaptação climática, precisa de transformar o risco climático em linguagem económica. Precisa de saber quanto custa não adaptar. Precisa de identificar quais os setores mais vulneráveis, quais os investimentos com maior retorno económico e quais as medidas que oferecem maior proteção para a economia nacional.O país necessita de um verdadeiro Plano Económico e Financeiro para a Adaptação Climática. Um plano que complemente a estratégia existente com metas económicas, avaliações de risco, prioridades de investimento e mecanismos de financiamento. Um plano que permita responder a perguntas fundamentais: quanto investir, onde investir e qual o retorno esperado desses investimentos.A adaptação representa também uma oportunidade. Portugal tem vindo a desenvolver competências em áreas como a gestão da água, energias renováveis, monitorização ambiental, digitalização, proteção costeira e planeamento territorial. Num mundo crescentemente exposto aos impactos climáticos, estas capacidades podem transformar-se em vantagens competitivas e em oportunidades de exportação de conhecimento e tecnologia.Existe ainda uma dimensão que raramente é discutida: a segurança económica. Durante décadas associámos a segurança à defesa militar ou à segurança energética. Hoje, a capacidade de resistir a secas extremas, cheias, incêndios ou ruturas em infraestruturas críticas é igualmente uma questão de segurança nacional. Investir em adaptação é investir na estabilidade da economia e na proteção dos cidadãos.A pergunta que Portugal deve colocar não é quanto custa adaptar, mas sim quanto custará não o fazer.A competitividade das próximas décadas dependerá cada vez mais da capacidade de antecipar riscos e construir resiliência. A adaptação climática não é um complemento da política climática. É uma condição para o desenvolvimento económico do país.