A voz que nos ensinou a ficar

Cecília Carmo

Subdiretora do Diário de Notícias

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Não conheci Jorge Palma pessoalmente. Nunca tive com ele uma conversa, nunca lhe apertei a mão, nunca estive num camarim à espera de uma frase ou de uma história. Mas acompanhei sempre a sua carreira. Acompanhei-a como se acompanham os artistas que acabam por fazer parte da nossa educação sentimental: primeiro pela rádio, depois pelos discos, pelos concertos, pelas canções que surgem num momento certo e ficam para sempre associadas a uma pessoa, a uma viagem, a uma casa, a uma ausência ou a uma noite demasiado longa.

Há músicos que têm êxitos. Jorge Palma teve uma obra. E uma obra não se mede apenas pelo número de discos vendidos, pelas salas cheias ou pelos prémios recebidos. Mede-se pelo lugar que passa a ocupar na vida dos outros. As canções de Jorge Palma deixaram de ser apenas dele no dia em que começaram a ser cantadas por todos nós, muitas vezes sem sequer pensarmos de onde nos vinha aquela frase, aquele refrão, aquela vontade súbita de olhar para alguém e dizer: “Encosta-te  a mim.”

Era isso que tornava a sua música tão especial. Não havia excesso de pose, nem palavras vazias à procura de aplauso. Havia um piano, uma voz inconfundível, uma maneira muito própria de habitar a canção e uma honestidade que se sentia mesmo quando doía. Jorge Palma falava de amor, mas não do amor perfeito das histórias fáceis. Falava do amor que hesita, que falha, que se perde e que, ainda assim, procura uma nova oportunidade.

Talvez por isso tenha sido tão importante para tantas gerações. Porque todos, em algum momento, fomos frágeis. Todos já sentimos que o mundo nos pedia mais do que conseguíamos dar. Todos já atravessámos dias em que precisávamos de uma luz pequena, mas decisiva, para não desistir. E, nesses dias, as suas canções pareciam dizer-nos, quase ao ouvido: “Dá-me lume.”

Rita Chantre

Jorge Palma foi um dos grandes cronistas das emoções portuguesas. Soube falar da solidão sem fazer dela um espetáculo. Soube escrever sobre a noite sem a tornar escura demais. Soube cantar o desejo sem lhe retirar a delicadeza. E soube mostrar que a melancolia pode ser bonita, desde que não nos prenda para sempre.

O país habituou-se a ouvir a sua música como quem reencontra alguém de confiança. A voz podia chegar mais rouca, o tempo podia passar, as modas podiam mudar, mas havia ali uma espécie de fidelidade a si próprio. Jorge Palma nunca pareceu disposto a adaptar-se ao que era mais fácil ou mais vendável. Escolheu o seu caminho, com as contradições, as pausas, os excessos e a liberdade de quem não nasceu para obedecer a fórmulas.

As suas músicas ensinaram-nos que não há vergonha em admitir a vulnerabilidade. A palavra “frágil”, tão ligada ao seu universo, não era uma confissão de derrota. Era uma forma de verdade. Porque só quem reconhece a sua fragilidade pode perceber a força que existe em pedir ajuda, em recomeçar ou em ficar ao lado de alguém quando tudo aconselha a partir.

Não o conheci pessoalmente, mas há uma proximidade que não depende do contacto direto. É a proximidade que se cria quando um artista encontra as palavras que nós não conseguimos encontrar. Jorge Palma pertenceu a essa rara categoria de artistas que não nos falam de cima. Falava-nos ao lado. Falava-nos de pessoa para pessoa. E talvez seja por isso que, quando se anuncia a sua morte, a notícia não parece distante. Parece a partida de alguém que conhecíamos, mesmo sem o conhecer. De alguém cuja voz já nos tinha feito companhia em tantas ocasiões.

Hoje, recordam-se os grandes temas, os discos, os concertos, as colaborações e o talento extraordinário de um compositor que marcou a música portuguesa. É justo que assim seja. Mas há algo mais íntimo que permanece: a memória de cada um de nós com as suas canções.

Essa é a vitória dos artistas maiores: continuarem presentes quando já não estão. Jorge Palma partiu, mas deixou-nos uma espécie de casa feita de música. Uma casa onde cabem a saudade,  o amor, o desalento, a esperança e até  o riso. Porque a vida, por mais dura  que seja, também pede que se encontre um lugar para respirar e dizer: “Deixa-me rir.”

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