É uma pergunta muito comum, esta que se faz quase sem dar conta. Não é, por norma, uma questão que tenha ponta de malícia, mas a facilidade com que é feita esconde, muitas vezes, a violência com que é recebida pelo destinatário. Sobretudo se for uma destinatária.Em Portugal, tal como na maioria dos países europeus, estima-se que 10% a 20% das gestações acabam em aborto espontâneo. Dessas, 80% acontecem antes das 12 semanas – muitas delas até nem são identificadas, na verdade. E por isso, também, é que não há um registo nacional com estes dados, que podem apenas ser estimados.Isto quer dizer que em cada 100 gravidezes, 20 podem terminar de forma espontânea, e durante os primeiros três meses. Para uma mulher que tenha uma gravidez desejada, estas podem ser perdas normalizadas pela sociedade, mas que não lhe doem menos. Não raras vezes, a mesma mulher sofre vários abortos espontâneos por motivos que lhe são totalmente alheios, o que dificulta ainda mais a vivência desses lutos. Daí que, quando se pergunta a uma mulher se ela “só tem um filho”, está-se muitas vezes a ignorar que pode haver uma série de fatores não opcionais para essa decisão, e que a pergunta pode provocar uma nova onda de dor a quem a ouve.Não é por acaso que a lei portuguesa prevê uma ausência justificada do trabalho – é uma licença de entre 14 a 30 dias, remunerada e que a empresa não pode negar, sendo a violação deste direito considerada uma contraordenação muito grave – em caso de perda gestacional. O Governo quer, aliás, rever esta lei para que ela passe a incluir também perdas em estágios precoces, que não originam atestado médico, e que atualmente permitem apenas uma falta de três dias por luto gestacional.A decisão ou a possibilidade de ter filhos é algo profundamente íntimo e pessoal, que não diz respeito a outras pessoas que não o casal – ou a pessoa – em questão. Não raras vezes acreditamos ter o direito de perguntar a alguém se vai ter filhos ou se vai ter mais filhos, não lembrando um princípio muito relevante nesta coisa da vida em sociedade: o nosso contexto não é o mesmo do que o nosso interlocutor.A antropologia mostra que, em muitas sociedades tradicionais, a mulher era valorizada sobretudo pela fertilidade – ter mais filhos significava ser melhor mulher. Estereótipos que se mantiveram até aos dias de hoje, e que apesar de não fazerem sentido, perpetuamos através de perguntas simples como a que dá título a este texto. Que não têm, em si, nada de mal, mas que escondem estes viés. O que a ciência nos tem mostrado, na verdade, ao longo das últimas décadas, é que parece haver um maior risco de ansiedade e depressão em mulheres que sentem que “falharam” por não ter filhos ou não terem mais do que um filho. Muitas delas enfrentam problemas de infertilidade ou perdas gestacionais recorrentes, o que aumenta significativamente o impacto emocional destes mitos que persistem com o passar do tempo.Pode parecer algo simples, fazer uma pergunta como esta: “Só tens um filho?”. Mas talvez não fosse má ideia fazermos uma pausa antes de fazer a pergunta, e refletir sobre tudo o que poderá estar por detrás desse facto. Nem sempre se tem apenas um filho por opção. E nem sempre as pessoas precisam de estar a ser recordadas desse facto.