A Venezuela: entre a tragédia e um futuro incerto

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A história da Venezuela é marcada por contrastes profundos que parecem definir o destino do país. Terra de muitas riquezas naturais, mas também de crises persistentes, vive entre a memória de um passado atribulado e a urgência de um presente conturbado. Para compreender o país de hoje, é necessário regressar ao momento em que Simón Bolívar imaginou um futuro glorioso para a região.

No início do século XIX, quando a independência ainda era apenas um ideal inflamado por revoluções externas, Bolívar concebeu um projeto ambicioso: criar uma grande federação capaz de enfrentar as potências europeias e garantir estabilidade aos novos Estados. Assim nasceu a Gran Colombia (1821), que integrava a Venezuela, a Colômbia, o Equador e o Panamá. Para Bolívar, essa era a base de uma identidade continental unida por língua, história e aspirações comuns. O sonho, porém, durou pouco. Rivalidades regionais e ambições pessoais fragmentaram a federação e, em 1830, a Venezuela separou-se. Bolívar morreu amargurado, ao ver o seu projeto derrotado.

A Venezuela mergulhou então num século XIX marcado por guerras civis e caudilhismo, e só no século XX, com a descoberta de vastas reservas de petróleo, começou a reinventar-se. O ouro negro transformou Caracas numa metrópole moderna e alimentou a crença de que o país estava destinado à prosperidade. Nos anos 1970, com o boom petrolífero, a Venezuela parecia finalmente cumprir essa promessa, ainda que marcada por fortes desigualdades e muita pobreza. Mas a dependência extrema do petróleo tornou-se uma armadilha: quando os preços caíram, a economia colapsou.

A crise dos anos 1980 e 1990 abriu caminho para a ascensão de Hugo Chávez a presidente (1998), que recuperou o imaginário do passado para construir a sua Revolução Bolivariana, dando casa digna a muitos venezuelanos, como testemunhei durante a Observação Eleitoral da UE em 2021 - algo frequentemente ignorado por quem olha o país com a ganância americana ou a distância europeia. Após a morte de Chávez, em 2013, a situação deteriorou-se rapidamente. A hiperinflação e a escassez de bens essenciais, motivada por sanções externas, mergulharam o país numa crise profunda, levando milhões a abandonar o território.

Hoje, a Venezuela vive entre o peso do passado e a urgência do presente, agravado na semana passada por uma enorme tragédia natural que os deuses, se existissem, lhe deveriam poupar. O sonho de Bolívar continua a ser invocado, como inspiração ou só retórica política, mas a realidade é mais dura: o país enfrenta desafios estruturais que exigem recuperação económica, reconciliação social, um novo pacto democrático e agora a reconstrução. A grande questão é saber se a Venezuela conseguirá transformar a memória de um grande ideal falhado num futuro mais estável — ou se continuará presa ao ciclo de promessas interrompidas que marcou a sua história.

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