A sustentabilidade é hoje muito mais do que uma política ambiental. É também uma política económica, social e de segurança. O Earth Overshoot Day, assinalado a 30 de julho, diz-nos que, em apenas sete meses, a Humanidade consumiu os recursos que a Terra consegue regenerar num ano inteiro. Até dezembro viveremos, simbolicamente, à custa dos recursos que a Terra apenas conseguirá regenerar durante 2027. Segundo o Global Footprint Network, o atual modelo de desenvolvimento exigiria o equivalente a 1,7 planetas para ser sustentável.Como acontece todos os anos, a data suscita duas reações previsíveis. Uns apresentam-na como prova de um colapso ambiental inevitável. Outros desvalorizam-na, por assentar em pressupostos metodológicos discutíveis. Ambos ignoram o essencial. O Overshoot Day não prevê o fim do mundo. É um indicador que procura responder a uma pergunta simples: estaremos a consumir recursos mais depressa do que a natureza os consegue regenerar? A metodologia pode e deve ser aperfeiçoada, mas a tendência que procura medir é suficientemente robusta para justificar atenção.A questão verdadeiramente importante já não é apenas ambiental. É económica, social, política e estratégica.Durante séculos, as economias cresceram partindo do princípio de que os recursos naturais eram praticamente ilimitados. Hoje, a água, os solos férteis, a biodiversidade, as florestas e as matérias-primas críticas tornaram-se fatores centrais de competitividade. O capital natural deixou de ser uma variável externa à economia para se tornar uma condição do seu funcionamento. E os custos da sua degradação medem-se não apenas em toneladas de carbono ou hectares de floresta perdidos, mas também em vidas humanas.É neste ponto que a sustentabilidade deixa de ser apenas uma política ambiental. Passa também a ser uma política de segurança.Desde 2014, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos classifica as alterações climáticas como um “multiplicador de ameaças”. O Banco Mundial estima que, sem políticas eficazes de adaptação e mitigação, até 2050 poderão existir cerca de 216 milhões de migrantes e a Organização Internacional para as Migrações acrescenta que a mobilidade humana induzida pelas alterações climáticas é já uma realidade observável.E se os atuais fluxos migratórios já desafiam a capacidade de resposta das democracias, o que acontecerá quando tivermos de lidar com milhões de pessoas a fazerem-se à estrada ao mesmo tempo e numa escala sem precedentes?Investir em sustentabilidade não é um custo imposto ao crescimento económico, mas um investimento na prosperidade, no desenvolvimento social, na resiliência e na segurança. E é também uma resposta às necessidades de quem menos tem e das próximas gerações.O Earth Overshoot Day não é uma previsão do futuro. É um alerta sobre o presente. A natureza deixou de ser apenas o cenário onde a economia acontece. Tornou-se um ativo estratégico, indispensável à prosperidade, à estabilidade das sociedades e à segurança dos Estados. Ignorar este facto poderá revelar-se muito mais caro do que agir enquanto ainda dispomos da liberdade para escolher.