Vivemos, nos últimos tempos, imersos nu- ma sensação crescente de instabilidade. As notícias sucedem-se num ritmo inquietante, alternando entre conflitos armados e fenómenos climáticos extremos. Guerras que irrompem num ponto do globo, tempestades devastadoras noutro. À primeira vista, poderiam parecer acontecimentos separados; contudo, depressa se revela o seu denominador comum: a erosão da segurança.O turismo, enquanto expressão profundamente humana de confiança, curiosidade e abertura ao outro, só floresce em ambientes de paz. Viajar é sempre um ato emocional: escolher um destino é acreditar que esse lugar é seguro, acolhedor e fértil em boas memórias. Quando a perceção de segurança se esvai, o turismo é, invariavelmente, uma das primeiras atividades a ressentir-se.Um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Pequim, publicado na Annals of Tourism Research em setembro de 2025, analisou 115 conflitos armados em 16 países e concluiu que, nos contextos mais afetados, as chegadas de turistas podem cair, em média, 45%, e as receitas até 57%. Mais perturbador ainda: os efeitos negativos podem prolongar-se por cinco anos ou mais após o fim do conflito.Também no estudo Tourism and Troubles: Effects of Security Threats on the Global Travel and Tourism Industry Performance, realizado em 2023 pela Universidade de Birmingham, e baseado em dados de 161 países, demonstra que o impacto das ameaças à segurança não se circunscreve ao país atingido, propagando-se aos destinos vizinhos e contaminando toda a sua rede turística. Destroem a confiança, postos de trabalho e economias inteiras.Mas as ameaças à segurança não se esgotam na geopolítica. As alterações climáticas têm vindo a intensificar fenómenos extremos que, com regularidade crescente, interrompem acessos, danificam infraestruturas e paralisam empresas e comunidades. Em Portugal, as tempestades registadas no início deste ano ilustram bem esta vulnerabilidade: cada episódio converte-se, de imediato, em quebras de faturação e fragilidade económica para setores como o alojamento e a restauração. Impõe-se, assim, uma interrogação tão simples quanto inquietante: estaremos, de facto, preparados para enfrentar violências meteorológicas cada vez mais severas?A Lei de Bases do Clima, aprovada em 2021, é inequívoca: todos os municípios portugueses deveriam ter aprovado os seus Planos Municipais de Ação Climática até fevereiro de 2024. Todavia, mais de metade permanece em incumprimento, deixando vastas parcelas da população sem orientação clara sobre a sua proteção perante secas, cheias ou ondas de calor.No contexto nacional, os municípios constituem verdadeiras “potências médias”: conhecem bem a região, sabem onde a terra é mais permeável, quais os vales mais suscetíveis a inundações, que bairros estão mais expostos ao calor extremo. Um plano climático municipal possui uma granularidade que nenhum gabinete central consegue igualar. E, porque estão mais próximos dos cidadãos e gerem quotidianamente o território, dispõem da legitimidade democrática necessária para mobilizar comunidades e responder rapidamente em situações de calamidade - desde que, naturalmente, estejam preparados.Há bons exemplos da intervenção dos municípios neste campo, como a cooperação das câmaras municipais de Setúbal, Palmela e Sesimbra no âmbito do projeto PLAAC-Arrábida. De forma rigorosa e participativa, estas autarquias mapearam vulnerabilidades, projetaram cenários climáticos futuros e definiram medidas concretas de adaptação a curto, médio e longo prazo. Envolveram técnicos municipais, universidades, Proteção Civil, empresas, associações e comunidade; criaram grupos locais de adaptação e submeteram os documentos a consulta pública. Ao trabalharem em conjunto, demonstraram uma evidência crucial: quando o território partilha vulnerabilidades, a ação coordenada não é apenas desejável - é mais eficaz, mais preventiva e mais racional na utilização de recursos.Este é, afinal, o modelo de governação de que o país necessita: cooperativo, ancorado em evidência científica, participativo e orientado para a execução. Planos climáticos não são um luxo ambiental; são instrumentos de sobrevivência económica.Programas de reconstrução, como o recente Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência, apresentado pelo Governo, constituem passos importantes para mitigar as consequências das catástrofes naturais. Contudo, o debate que suscitam relembra uma verdade essencial: a recuperação não pode limitar-se às infraestruturas físicas. É imprescindível proteger o tecido económico que dá vida às comunidades - o comércio de proximidade, a restauração, os pequenos negócios.Discutir segurança, hoje, significa articular duas dimensões inseparáveis: a estabilidade internacional e a resiliência territorial. Porque, no fim, todas as catástrofes, sejam elas humanas ou naturais, repetem a mesma lição: quando a segurança se perde, os territórios deixam de ser destinos.