A segurança energética de Portugal começa em casa

Aprígio Guimarães

Country sales manager Portugal, ACCIONA Energía

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Num contexto marcado pela volatilidade dos preços da energia e pelas tensões geopolíticas que afetam o fornecimento de combustíveis fósseis, a segurança energética assume um papel cada vez mais crítico para Portugal. Esta preocupação é também refletida nas recentes conclusões do MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade), que alertam para "riscos negativos" significativos para o crescimento económico e para a sustentabilidade da dívida do país.

Não precisamos recuar muito no tempo para compreender estas palavras. Em abril, e de acordo com o Instituto Jacques Delors1, o impacto negativo do conflito militar em torno do Golfo Pérsico, só para Portugal, rondou os mil milhões de euros, distribuídos entre custos para o erário público com gastos das famílias e empresas, por via aumento exponencial do preço da gasolina e gasóleo. O próprio ministro das Finanças, Miranda Sarmento, considerou a eventual falta de combustível como um fator muito perigoso para a economia2.

Durante décadas, dependemos fortemente da importação de combustíveis fósseis, com uma exposição a crises internacionais, conflitos geopolíticos e aumentos repentinos dos preços da energia. Os choques petrolíferos de 1973 e 1979 tiveram consequências graves no dia-a-dia dos portugueses. E, desde então, os momentos de maior tensão no Médio Oriente acabam sempre por se sentir na fatura da eletricidade de pessoas e empresas, com reflexos em toda a economia.

Aspetos, ainda assim, mitigados pela crescente resiliência e segurança energética do país. Segundo o Energy Supply Security Index (ESSI), entre 1995 e 2024 assistiu-se a um esforço com vista a diminuir as vulnerabilidades identificadas a este nível. Também por isso, urge manter essa linha condutora coerente e evolutiva, perante uma realidade global que não deixa de surpreender.

Atualmente, o debate sobre esta matéria centra as atenções nas políticas de redução da dependência de combustíveis fósseis importados, tornando o país menos sensível às oscilações dos mercados internacionais. Com a certeza de que independência energética não será alcançada apenas através de iniciativas de grande escala. A participação ativa dos cidadãos e das famílias nesta transição é igualmente indispensável, com o intuito de tornar o sistema mais robusto, flexível e preparado para enfrentar desafios futuros.

Com isso, há que garantir uma visão alargada a todo o processo, como a adoção de energia 100% verde, desde a fonte, fator fundamental para uma estratégia que se pretenda sustentável. Mas nada disto fará sentido se não se acelerar a eletrificação da economia, que não apenas a nível industrial, mas também nas habitações, na implementação de veículos elétricos ou através da expansão das bombas de calor.

Ao diversificar as fontes de produção, descentralizar a geração de energia e reforçar as soluções de flexibilidade, por exemplo, através do armazenamento energético, reduz-se o risco associado à dependência de um número limitado de infraestruturas ou fornecedores. Fundamental, para um país com as características endógenas do nosso, em face de crises energéticas e interrupções no abastecimento, ainda na memória de todos.

A independência energética beneficia-nos também como cidadãos, pois cada família beneficiará de uma menor exposição à volatilidade dos preços da energia. Se queremos ser menos vulneráveis, mais sustentáveis e competitivos, não basta esperar por grandes projetos ou por novas políticas públicas. É necessário envolver as pessoas no centro da mudança. Dessa forma, estaremos devidamente preparados e cientes de que a segurança energética de Portugal não se constrói apenas nas centrais elétricas de grande dimensão ou nos gabinetes governamentais.

1https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/crise-energetica-custou-mil-milhoes-a-portugal-ate-agora/.
 
2 https://observador.pt/2026/05/05/falta-de-querosene-pode-causar-choque-economico-muito-significativo-em-portugal-avisa-miranda-sarmento/.
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