Há um ano, na edição do DN de 29 de agosto, escrevi que a rentrée 2025-2026 se anunciava pouco promissora: instituições multilaterais paralisadas, diplomacia reduzida a espetáculo, violações frequentes das normas internacionais e conflitos prolongados, tudo no quadro de uma União Europeia ameaçada, hesitante e dividida. Os 12 meses seguintes confirmaram esse diagnóstico. A rentrée deste ano é ainda mais desafiante: a instabilidade e as ameaças à paz e à segurança global aumentaram consideravelmente.
O que torna esta rentrée decisiva não é apenas a gravidade simultânea das múltiplas crises e a sua imprevisibilidade. É o facto de elas revelarem, de modo cada vez mais claro, que a Europa só poderá proteger os seus interesses, os seus cidadãos e os seus valores se reforçar a sua unidade política.
Temos um continuum de crises progressivamente interligadas: a crise ambiental agravou-se; a guerra contra a Ucrânia intensificou-se, em paralelo com um crescendo das ameaças russas contra a Europa democrática; no Médio Oriente, a violência não tem fim à vista; no Sudão, o colapso humanitário prossegue com uma indiferença e uma brutalidade que espelham a desordem internacional que vivemos. Sobre essa teia caiu agora uma perigosa corrida ao desenvolvimento da Inteligência Artificial, disputada por Washington, Pequim e um pequeno número de colossos empresariais com capacidades financeiras e políticas inconcebíveis.
O sintoma mais claro desta desordem é a falta de respeito pelo papel político da ONU, hoje refém das rivalidades entre os EUA, a China e a Rússia. António Guterres conclui o mandato no próximo 31 de dezembro. Não há ainda consenso sobre um candidato capaz de atravessar o muro do veto das grandes potências. Existe o risco de se entrar num carrossel de incertezas – um poço da morte geopolítico que conduzirá à escolha de um candidato conveniente e obediente em todos os azimutes. As Nações Unidas, de que tanto precisamos, entrariam, nesse caso, num novo patamar de decadência.
Foi nesse vazio que, no fim de agosto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, se deslocou a Moscovo – não para falar com Putin, mas com os chefes da SVR (serviços secretos externos) e do FSB (segurança interna), a quem chegou a propor uma cimeira a três entre Trump, Putin e Zelensky. Washington chamou a isso rotina. Na prática, foi um exercício de exclusão dos serviços europeus e das regras da ONU. Foi também, do lado russo, um exemplo da sua manha habitual: discutir entre espiões, não com o chefe de Estado, é a forma clássica de negar o envolvimento do Kremlin, de ganhar tempo e de prosseguir o intento de fraturar a NATO e a UE. O objetivo de Moscovo tem pouco a ver com a paz na Ucrânia ou com a inviolabilidade e a segurança na Europa democrática. Moscovo procura ganhar tempo para atingir os seus fins. E é precisamente esse episódio que mede com exatidão o peso real da União Europeia: enquanto o calendário for definido por Washington e Moscovo, sem que Bruxelas tenha assento na sala, a Europa continuará a ser o objeto, o espetador e um elemento passivo do jogo global.
Há quem tire daqui uma conclusão pessimista e olhe para os próximos tempos com grande preocupação – os que acreditam que a Europa está condenada à irrelevância. É fundamental combater essa ideia e lembrar, com coragem e propostas concretas, que é preciso avançar no sentido de uma federação dos Estados europeus. Onde a Europa se uniu de facto – nas áreas do comércio, da concorrência, do mercado e da moeda – negoceia como uma potência. Onde ficou pela concertação intergovernamental, sujeita ao veto de cada membro – na Defesa, nas relações externas, nos mercados financeiros e nas indústrias críticas –, a UE pesa pouco ou nada perante Washington, Moscovo ou Pequim, como o episódio Ratcliffe acaba de confirmar. E não pode contar com o apoio ou o respeito de nenhum dirigente vindo dessas capitais.
Em termos realistas, o ano político 2026-2027 deveria traduzir-se num reforço da integração entre os Estados que compreendem a escala dos riscos que temos pela frente. Como tem defendido Mario Draghi, quem quiser juntar-se, junta-se; quem quiser bloquear, deixa de poder impedir os outros. Não se trata apenas da economia. Em jogo estão a soberania, a defesa, as nossas escolhas geopolíticas, a dignidade dos cidadãos e a proteção dos nossos valores humanísticos.
Mas esse federalismo institucional não resolve, por si só, a outra fratura que atravessa o espaço europeu: o agravamento das desigualdades sociais. Há uma concentração crescente da riqueza no topo das pirâmides sociais, em paralelo com a precarização das classes médias e dos mais pobres. Daqui resulta uma erosão da base material das democracias, o que permite a expansão dos movimentos demagógicos e populistas. Isto aplica-se à situação portuguesa como a tantas outras sociedades europeias, onde os partidos do arco da governação convencem cada vez menos os cidadãos e aumentam a impaciência social. Muitos dos nossos governos administram a realidade com retóricas do século passado.
A força externa da UE tem de assentar num contrato social interno que promova o otimismo, a igualdade e a confiança nos dirigentes políticos. Sem essa base, qualquer ensaio de federação será uma arquitetura sem alicerces.
Há um ano, achei difícil ser otimista. Continuo a pensar assim. Mas não podemos perder a esperança nem cair na ingenuidade. Agora, em setembro de 2026, os dados estão lançados. Por isso o desafio é reforçar a nossa união, sem subordinações e sem ter de pedir licença a quem quer fazer as contas sem nos consultar.