Assim que deixou de ser príncipe do Reino Unido, Andrew Mountbatten-Windsor perdeu também o privilégio de ser André para os portugueses. As regras são claras: só reis e príncipes têm direito a tradução e plebeus estrangeiros ficam com o nome original. E é curioso como esta distinção linguística resume, de forma quase cruel, a metamorfose do homem. Esta crónica é, por isso, tanto sobre Andrew - o suspeito detido ontem por alegadamente ter passado informação confidencial ao seu velho amigo e cúmplice Jeffrey Epstein - como sobre André, o príncipe nascido na púrpura, que protagonizou a mais espetacular queda em desgraça das últimas décadas.O terceiro filho de Isabel II e do príncipe Filipe parecia condenado a uma existência confortável, discreta e sem sobressaltos. Não herdaria a coroa, não carregava o peso da História e não era alvo de escrutínio permanente. Durante décadas, André navegou acima das polémicas, protegido pela aura de “filho preferido” da rainha e por uma imprensa que, não raras vezes, o tratava com mais benevolência do que tratou Carlos. Este, recorde-se, passou anos atolado em dramas sentimentais e foi ridicularizado por defender causas que, na altura, soavam a excentricidades, desde a arquitetura tradicional à proteção ambiental..Mas o tempo tem um talento especial para redistribuir reputações. Carlos viu muitas das suas bandeiras serem validadas - sobretudo as ambientais - e, já como rei, revelou uma sensatez que poucos lhe reconheciam. O país reconciliou-se com Camila, a ferida de Diana cicatrizou o suficiente e a monarquia encontrou um equilíbrio possível.André, pelo contrário, caiu num abismo sem fundo, após ser acusado de abusar sexualmente de uma jovem de 17 anos que lhe fora apresentada (ou melhor dizendo, traficada) por Jeffrey Epstein: perdeu títulos, perdeu casa, perdeu o benefício da dúvida. E agora perdeu a liberdade, detido por suspeitas de prevaricação no exercício das suas funções como enviado especial do Comércio britânico. O príncipe tornou-se plebeu. André tornou-se Andrew.Há, pelo menos, três lições que este episódio deixa à vista desarmada.A primeira é que Jeffrey Epstein não era apenas um predador sexual: era um engenheiro de influência e, muito provavelmente, um ativo de uma ou mais agências de espionagem. Construiu uma teia de recolha de informação sensível baseada na exploração sexual de menores, para comprometer figuras poderosas. E poucas presas seriam tão valiosas como um membro da família real mais influente do planeta, com acesso privilegiado a governos, casas reais, grandes fortunas e, até, ao líder chinês Xi Jinping. Quantas outras figuras poderosas, nos Estados Unidos e na Europa, estariam nas “mãos” de Epstein?A segunda lição é que a monarquia britânica, tantas vezes acusada de imobilismo, soube agir com frieza cirúrgica. Desde que Carlos subiu ao trono, a mensagem tem sido inequívoca: ninguém está acima da lei. O distanciamento em relação ao irmão foi rápido, público e necessário. Ainda assim, o caso deixa marcas e os republicanos ganharam argumentos para atacarem a instituição. Além disso, não faltará quem pergunte se as autoridades britânicas desconheciam realmente o conteúdo dos ficheiros do caso Epstein agora revelados.A terceira lição é talvez a mais incómoda: goste-se ou não da monarquia britânica, é difícil imaginar um desfecho semelhante noutras geografias políticas. Em quantas repúblicas veríamos o irmão de um presidente ser detido por suspeitas desta natureza? A pergunta não é retórica. Em muitos aspetos, a monarquia britânica continua a ser mais democrática que a maioria das repúblicas que existem por esse mundo fora, apesar do privilégio cada vez mais difícil de justificar e da influência que os seus membros continuam a ter, sobretudo nos bastidores da política e do poder económico.No fim, resta a ironia: Andrew perdeu o título, perdeu o nome traduzido e perdeu a proteção do mito. O que sobra é apenas isto: um homem confrontado com as consequências, e uma monarquia obrigada a provar que a coroa não é um escudo.