O trágico caso de Maria Eduarda Freitas, 21 anos, que morreu ao ser lançada de uma altura de 40 metros na inacabada e abandonada Ponte do Esqueleto, em Limeira, estado de São Paulo, sem a corda de segurança presa ao corpo, correu o mundo. Sem surpresa. Afinal, a morte de Duda entra imediatamente para o topo da tétrica lista de mortes surreais por negligência no Brasil: ela foi praticar rope jump, ou seja, “salto com corda”, sem que os funcionários que ganham dinheiro com a atividade lhe atassem… uma corda. Sem querer fazer graça com coisas sérias, seria como se num jogo de futebol, ou seja, “pé na bola”, só no fim da partida o árbitro desse conta da falta de… bola. As investigações da polícia demonstraram, entretanto, que os responsáveis pelo evento, provavelmente muito elogiados pelo “empreendedorismo”, operavam uma empresa informal, a carecer de licenças, divulgada sem amarras pelas redes sociais mesmo sendo de altíssimo risco. A mesma negligência causou em 2013 a morte de 242 jovens, em Santa Maria, só por se terem ido divertir a uma discoteca que fez, sem autorização, um espetáculo pirotécnico em local fechado. Ou a morte, após incêndio, de dez promessas adolescentes do Flamengo nos alojamentos do clube, que dormiam em caixotes sem mínimos de segurança, em 2019.Já em 2025 uma menina de cinco anos morreu em Teresina, numa escola onde devia sentir-se protegida, porque alguém deixou um móvel pesadíssimo no local onde as crianças brincavam que lhe caiu em cima.A produção do concerto de Taylor Swift no Rio de Janeiro, em 2023, não distribuiu água para o público que, sob um calor de rachar, esperou a artista por horas. Resultado: uma estudante, de 23 anos, morreu após desmaio por desidratação. À falta de respeito com a vida dos brasileiros soma-se a falta de respeito com a morte: depois de Duda morrer ao ser atirada sem cordas da ponte, ainda foi alvo de necrofilia de perfis online a fazer apologia à violência sexual contra o cadáver.Da mesma forma que o quiosque Tropicália, no calçadão da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ficou aberto durante quase três horas com o cadáver do congolês Moïse Kabagambe, espancado até a morte após briga no local em 2022, ao lado. E, no ano seguinte, um quiosque vizinho, o Naná 2, reabriu normalmente na manhã seguinte ao fuzilamento de três médicos que participavam numa palestra por traficantes que os confundiram com criminosos rivais.Por essas e por outras, além da falta de qualidade de vida, há quem se refira à falta de qualidade de morte no Brasil.Basta lembrar que por falta de respeito das autoridades da época à vida, cerca de metade das 716 mil mortes por covid no país, segundo estudos de especialistas, eram evitáveis, caso as vacinas chegassem antes e as medidas de isolamento fossem incentivadas. E que, por falta de respeito à morte, o presidente de então ainda disse que não era coveiro e se divertiu com a falta de ar dos compatriotas.