A pulsão de Brasília

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"O Odebrecht vai fazer delação premiada (...) tem que ter um impeachment (...) é preciso botar o Michel e fazer um grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”.

O Odebrecht em causa era Marcelo Odebrecht, o poderoso dono da construtora da família que corrompeu quase toda a gente com poder no Brasil.

O impeachment era o de Dilma Rousseff, uma das raras autoridades sem telhados de vidro durante o processo da Lava-Jato, e o Michel, o Temer, cuja ascensão à chefia do Estado ajudaria a estancar a operação graças ao bom trânsito do político nos poderes legislativo e judicial.

A frase, dita a meio de um telefonema com um amigo captado pela Polícia Federal e partilhada na imprensa algures em 2016, pertence a Romero Jucá, então um dos mais destacados caciques do MDB, símbolo do conservadorismo à brasileira. E é o resumo do estado de espírito do establishment de Brasília naqueles tempos por causa da ofensiva lava-jatista sobre a classe política.

Dez anos depois, o estado de espírito do establishment de Brasília, por causa da ofensiva policial em torno da falência do Banco Master sobre a classe política, voltou ao mesmo patamar.

Os casos têm, entretanto, diferenças. Desde logo, em vez do multimilionário velho rico Marcelo Odebrecht, desta vez o pivô do escândalo é um novo rico, o banqueiro Daniel Vorcaro.

Na altura, o poder judicial começou no papel de justiceiro aclamado pelo povo, com Sergio Moro alçado a herói incorruptível. Agora, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) com laços familiares aos tentáculos de Vorcaro, estão no olho do furacão.

E os media, em vez de fascinados por Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol por colocarem pela primeira vez na cadeia poderosos até então habituados à impunidade, desta vez estão de sobreaviso: afinal, anos depois a Operação Vaza-Jato expôs na imprensa as ilegalidades em série da Lava-Jato motivadas pela agenda política de Moro, mais tarde ministro e hoje senador, e de Dallagnol, hoje deputado.

Mas tem também semelhanças: embora Odebrecht e Vorcaro tenham corrompido políticos de todas as áreas, principalmente da direita e da centro-direita, na hora das revelações, quem estava no poder em 2016 era o PT, de Dilma, e quem está no poder em 2026 é o PT de Lula da Silva. Por isso, as fugas de informação e delações premiadas de então, como as de agora, inevitavelmente, mas talvez injustamente, contaminam o partido em ano eleitoral.

A maior semelhança, porém, é a proverbial pulsão de Brasília, leia-se, da casta política que domina o Brasil há anos, há décadas, há séculos, pelo luxo.

De ex-ministros de Bolsonaro a juízes do STF, gente já que vive dentro do 1% dos mais ricos e privilegiados do país (e do mundo), todos se deixam tentar pela próxima negociata da China proposta pelos multimilionários amigos do poder, por um camarote exclusivo na Sapucaí ou em Interlagos, por uma viagem de jatinho, por um charuto cubano na boca ou por um whisky de 12 anos goela abaixo. Mesmo sabendo dos riscos para as respetivas carreiras e reputações.

O cérebro guloso de Brasília funciona como o do mais desgraçado dos heroinómanos.

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