“A Rússia será a terceira potência mundial, a Europa vai desintegrar-se.” O título com que o L'Express apresentou esta semana a entrevista a Peter Turchin, a propósito de Le Déclin des Empires, acabado de chegar às livrarias francesas, deu brado e correu as redes. O diagnóstico tem força. A conclusão convém a Moscovo.
Turchin não é um charlatão, e é por isso que merece ser lido com atenção. Filho do dissidente soviético Valentin Turchin, ecólogo convertido à História, fundou a cliodinâmica, a pretensão de medir com curvas e índices como nascem, crescem e caem os impérios. Ganhou certa aura de profeta ao anunciar na Nature, em 2010, uma década de instabilidade nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Agora arruma o século: a China ascende, os Estados Unidos desagregam-se, mas aguentam o topo, a Rússia, se vencer a guerra, será a terceira potência mundial, e a União Europeia, já em desintegração, dificilmente sobreviverá se os nacionalistas chegarem ao poder em França e na Alemanha.
O retrato é sério. Turchin combina a sobreprodução de elites, mais aspirantes ao poder do que lugares para lhes dar, o empobrecimento das maiorias e o enfraquecimento fiscal e de legitimidade do Estado. Junta-lhe a asabiya de Ibn Khaldun, a coesão que permite a um povo agir em conjunto, e conclui que ela se dissolve na Europa. A Europa está fracturada, e seria tolice negá-lo só porque Moscovo o celebra.
Turchin põe condições: a Rússia sobe se vencer, a União cai se os nacionalistas tomarem Paris e Berlim. Mas a primeira dá-a ele próprio por adquirida, ao garantir que a Rússia está a ganhar a guerra de desgaste. E ambas dependem de decisões europeias, não de uma curva. Karl Popper chamou miséria do historicismo à ilusão de que a História obedece a leis que permitem prever-lhe o curso, e deu nome ao seu efeito mais perverso, o Efeito Édipo: a previsão que ajuda a produzir aquilo que anuncia.
A conveniência não torna uma tese falsa, mas obriga a verificá-la duas vezes. Rússia vitoriosa, União em desagregação: é o núcleo da narrativa que Moscovo financia há anos, como mostrou em 2024 o caso Voice of Europe. E Turchin não coincide com ela apenas na conclusão. Na mesma entrevista, atribui a viragem russa à pressão da NATO, do Kosovo a 2008, trata como retórica a ameaça russa de que falam Von der Leyen, Merz e Macron, imputando parte dela ao Ocidente, e afirma que Putin era “o mais eurófilo dos dirigentes russos”. São teses do Kremlin com chancela académica. A gestão de percepções mais eficaz nunca grita; faz-se passar por ciência serena.
Como tenho escrito nestas páginas, Moscovo quer subverter a Europa; Washington, da Gronelândia às tarifas, quer vergá-la. Ambas apostam numa Europa sem vontade própria. É esse o serviço que a profecia fatalista presta, saiba-o ou não o seu autor: dizer à Europa que está condenada é desarmá-la antes do combate. É o Efeito Édipo convertido em instrumento. Em guerra de informação, o fatalismo é uma arma de precisão.
Divirjo de Turchin com a teoria dele. Em War and Peace and War, a asabiya forma-se nas fronteiras, sob a pressão de um adversário diferente de nós. Por essa lógica, a ameaça russa devia forjar coesão europeia. E foi o que se viu: sanções sucessivas, financiamento conjunto à Ucrânia, empréstimos comuns do programa SAFE para a Defesa, passos impensáveis antes de 2022. Ainda não é asabiya, mas é assim que ela começa.
Turchin dá à coesão mais peso do que aos recursos, e é aí que o seu ranking tropeça. Nenhuma potência é auto-suficiente; todas têm pés de barro, mas não da mesma argila. Os Estados Unidos são os que mais se aproximam, da indústria aos recursos, com uma população que envelhece menos do que a dos rivais. A China tem quase tudo isto, mas importa a maior parte do petróleo e boa parte do gás. A Europa importa uma parte maior da energia que consome, mas gera riqueza equivalente com um terço da energia chinesa e lidera, entre as grandes potências, na quota de renováveis. A Rússia é outra coisa: uma economia do hidrocarboneto, quase primária, comparável à italiana em dólares correntes, com indústria civil fraca, infra-estruturas degradadas e menos de 150 milhões de habitantes no maior território do planeta. Tirando a extensão e o maior arsenal nuclear do mundo, nada nela é de superpotência. A asabiya sem base não faz um império, faz uma potência perturbadora.
A fractura europeia é um estado, não um destino. Nenhum país médio enfrenta sozinho a escala chinesa, a perturbação russa ou a pressão americana. Separados, somos presa. Juntos, podemos ainda ser a terceira âncora de um mundo que se reorganiza, lugar que Turchin entrega à Rússia com demasiada pressa.
Turchin pode ter razão no retrato e errar na sentença. A Europa não está destinada a desaparecer. Está destinada a decidir. E nada está escrito enquanto houver quem se recuse a assiná-lo.