A pequena lamparina da Praça da Figueira traz a ‘Odisseia’ de Homero à vida

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

Publicado a: 

Diz a lenda que o antigo nome de Lisboa, Olissipo, estava ligado a Ulisses (Ulixes), o herói do poema épico de Homero, Odisseia.

Deixando de lado os mitos, uma lamparina de terracota do século I, mostrando Ulisses com o seu filho Telémaco, proveniente de um escavação na Praça da Figueira, mostra que a mitologia grega era representada aqui durante o período romano.

O minúsculo tesouro, descoberto em 1962 durante a construção do metro, fazia parte de 140 objetos quando foi descoberta uma parte da necrópole romana.

Está agora exposto no Museu de Lisboa, no Palácio Pimenta.

O que o torna significativo é o facto de ser o único objeto diretamente relacionado com a Odisseia, de Homero, proveniente do local de escavação, disse Carolina Grilo, da Museologia e Património do Museu de Lisboa-Teatro Romano.

Habitualmente datada do final do século VIII a.C, a Odisseia conta a história do regresso de Ulisses à sua casa, em Ítaca, após uma viagem de dez anos, depois da Guerra de Tróia, tradicionalmente localizada em Tróia, no noroeste da Anatólia, atualmente Turquia.

Tal como no filme recente de Christopher Nolan, Odisseia, a cena na lamparina é um dos momentos emocionais mais fortes. Telémaco está prestes a reconhecer o seu pai e a unir-se a ele para recuperar a sua casa.

“Lucerna com cena mitológica, com a representação de Ulisses ajoelhado perante seu filho Telémaco,” lê-se na legenda sob a lamparina do Palácio Pimenta, em Campo Grande.

A legenda prossegue: “Trata-se de um episódio relatado na Odisseia, de Homero, quando Ulisses regressa a casa e descobre a existência de diversos pretendentes ao seu reino e à sua mulher. É ajudado pela deusa Atena, que o veste de mendigo permitindo-lhe, assim, aproximar-se do seu filho Telémaco sem ser reconhecido.”

A lamparina que se encontra  no Museu de Lisboa.
A lamparina que se encontra no Museu de Lisboa. FOTO: D.R.

O objeto é minúsculo, mas a representação nele é rica: “Por trás de Ulisses observa-se uma pequena edícula e, por baixo, uma inscrição confirma a identificação VLIXI (?) (Ulixes).”

Ao longo das gerações, têm sido feitos esforços para relacionar os poemas de Homero com lugares reais e vestígios arqueológicos.

Um dos debates estava relacionado com tesouros descobertos por um empresário alemão, Heinrich Schliemann, no século XIX.

Schliemann, um autoproclamado arqueólogo, estava obcecado em fornecer um guia preciso do local físico da antiga Tróia, conforme o livro de Alberto Manguel Homer’s Iliad & Odyssey.

Manguel, o célebre escritor e bibliógrafo, radicado em Lisboa, relata no seu livro como Schliemann descobriu, sob a chamada “lendária cidade de Tróia”, um tesouro constituído por “caldeirões de cobre cheios de taças de ouro e prata… e uma extraordinária coleção de joias de ouro”, e o retirou clandestinamente dos territórios otomanos, levando-o para Atenas, em 1873, para depois o doar a Berlim alguns anos mais tarde.

Schliemann insistiu que eram o “Tesouro de Príamo”, em homenagem ao lendário rei de Tróia na Ilíada, de Homero.

Mas datam da Idade do Bronze Antiga, por volta de 2500 a.C., mais de mil anos antes das lendas de Homero.

O Império Otomano processou Schliemann na altura, e este pagou uma indemnização.

As tropas soviéticas transferiram alguns dos tesouros da Alemanha para o Museu Estatal Pushkin, em Moscovo, após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A Turquia afirma que o pagamento, feito na altura, não refletia o verdadeiro valor dos tesouros e quer o seu regresso.

As reivindicações sobre a sua propriedade continuam entre os três países.

zredmont351@yahoo.com

Diário de Notícias
www.dn.pt