Estão correctos os albaneses quando, nas ruas de Tirana, protestam contra as intenções de Ivanka e Jared Kushner, filha e genro de Trump, de construírem um gigantesco resort de luxo em Zvernec, um santuário marítimo de praias cristalinas, lagoas e salinas, património que pertence ao povo albanês.Por cá, silenciosamente, a Península de Setúbal foi sendo vendida a empresas internacionais, a esmagadora maioria delas SPV (Special Purpose Vehicle), sociedades-veículo, algumas sobre as quais existe uma opacidade total quanto aos proprietários. Na esmagadora maioria dos casos não se sabe quem são. São famílias riquíssimas, fundos de investimento norte-americanos e ingleses, fundos institucionais, accionistas de todo o mundo, riquíssimos, estrelas do jet-set internacional, oligarcas de origem desconhecida. Os 45km de costa e as dez praias entre Troia e Melides foram entregues ao capital internacional para empreendimentos de luxo de muitos milhões de euros.É o mais recente exemplo de voracidade do capital internacional pelos últimos santuários existentes na Terra. Seja em Zvenerc ou em Melides. O assalto à costa do Estuário do Sado foi feito, discretamente, com a total conivência das Câmaras Municipais de Grândola e Setúbal e dos sucessivos governos, que ao longo dos anos permitiram esta situação. Percorrer a costa a partir de Troia até Melides é ver, sistematicamente, terrenos vedados com rede de arame e paliçadas de madeira. Tudo é feito para dificultar o acesso às praias pelos cidadãos que não sejam proprietários das luxuosas “villas” dos empreendimentos, ou não sejam hóspedes dos hotéis de luxo ou das branded residences, um novo conceito para quem compra uma villa de luxo de milhões de euros e tem acesso a todos os serviços dos hotéis associados.As propriedades privadas dificultam o acesso às praias que confinam com elas. Os estreitos caminhos para as praias têm de atravessar empreendimentos e terrenos privados e os gestores das luxosas propriedades criam todas as dificuldades ao cidadão anónimo que queira disfrutar do areal. Caminhos estreitos e não-identificados, parques de estacionamento diminutos, cancelas e barreiras físicas que, felizmente, a APA - Agência Portuguesa do Ambiente, tem vindo a desmantelar.As praias, em Portugal, são públicas. Qualquer cidadão, de qualquer patamar social, tem direito à utilização do areal, a banhar-se nas águas do oceano. É um património de todos nós e não uma exclusividade da avidez e voracidade dos que querem as dunas, os areais, a água do mar apenas para eles próprios, num exercício de egoísmo muito em voga nos tempos que correm.São inúmeros os luxosos empreendimentos em construção. A título de exemplo o projecto Na Praia, de Sandra Ortega, filha do dono da Zara, com uma fortuna avaliada em 12 mil milhões de dólares, que adquiriu 340 hectares na zona de Troia por 250 milhões de euros. Ali vai nascer um luxuoso hotel com 113 unidades de alojamento com quartos, suites, vivendas, villas privadas, quatro restaurantes de luxo e spas.É o luxo internacional a tomar conta da preciosa costa alentejana, das suas dunas, das suas águas e dos seus areais. Os mais ricos e afortunados querem as praias só para eles. São restaurantes de luxo, lojas de marcas internacionais caríssimas, projectos e empreendimentos que tornam cada vez mais inacessível e dispendioso o acesso à costa de Troia a Melides. Chegar a Tróia seja no ferry de carro, ou no barco, está a um custo insuportável. Este é também um exercício para a exclusividade por parte de quem pretende entregar um singular património apenas aos mais afortunados.Como foi isto possível ? A responsabilidade tem de ser atribuída aos gestores camarários, aos governos, que permitiram a instalação deste regabofe, desta avareza de exclusividade, desta preponderância de capitalistas sem rosto. É uma parte de Portugal que perdemos, sem sabermos bem para quem. Tal como em Zvernec, em Setúbal são os novos vampiros do século XXI a apossarem-se de uma parte da costa portuguesa.