A palavra escrita

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

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Porque as minhas palavras na entrevista que ontem dei a um canal de TV foram mal interpretadas, venho esclarecer que, quando disse “Cena”, me referia ao rio que atravessa Paris e não à triste cena protagonizada na AR por um deputado.

Quantas vezes já ouvimos estes esclarecimentos, habitualmente seguidos por uma contrição mais ou menos hipócrita: “na medida em que para tal equívoco possa ter contribuído involuntariamente, pela imprecisão das minhas palavras, para o que solicito a vossa compreensão”.

Estas correções, quantas vezes justificadas por erros intencionais, atestam a fragilidade da palavra oral. Presta-se a equívocos, esquecimentos, pequenas mentiras, desmentidos e desmentidos de desmentidos, jogos de palavras e outras habilidades. Claro que a palavra escrita também pode ser esclarecida e desmentida - nomeadamente, atribuindo-a à IA, que tem as costas largas -, mas dá mais trabalho e, por vezes, exige uma dose substancial de falta de vergonha.

A televisão, em especial a informação televisiva, é o lugar preferido dos especialistas na arte de falar sem esclarecer. Quantas vezes, ao taticismo manhoso do entrevistado se soma a sobranceria do entrevistador: convencido que conhece as respostas às perguntas que faz, interrompe o entrevistado a cada 30 segundos para fazer nova pergunta. Mesmo que o entrevistado queira responder - quando não quer, diz outra coisa qualquer, normalmente precedida de uma advertência do género “antes de lhe responder, quero referir a terrível situação de …” -, nunca consegue chegar ao fim de uma resposta, salvo se esta for a que convier ao entrevistador. Como se tal não bastasse, alguns entrevistadores acompanham os seus curtos silêncios (não lhes pagam para estarem calados) de esgares faciais tolos, de que é expoente máximo a famosa piscadela de olho.

Por estas razões, ignoro a informação televisiva. Prefiro ler - e escrever - para um jornal. Aqui, aquilo que digo fica escrito, não o desminto, nem esclareço. Também ouço informação radiofónica, que tem as vantagens de não se arrastar por hora e meia e de não se ver a cara do entrevistador. Mas sempre preferi a palavra escrita.

E, por favor, não me confrontem com a máxima “uma imagem vale mil palavras”. Não vale. As imagens impressionantes de desastres e tragédias em que a televisão se especializou têm de ser vistas com a maior prudência. Graças ao fact cheking, podemos vir a saber que aquelas imagens horríveis da floresta a arder na Grécia, foram colhidas anos antes num incêndio na Serra de Arga; que aquele combate aéreo nos céus do Irão é antigo e ocorreu no espaço aéreo afegão; ou que aqueles prédios destroçados não são no Corno de África, mas da guerra esquecida do Iraque, (não sei se repararam, mas não se vêem placas toponímicas, nem chapas de matrícula).

Por estas e por outras, e mesmo com a IA, prefiro a palavra escrita. Uma história mal contada não deixa de ser uma história. E até pode ser uma boa história

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