A obrigação de ajustar a lente

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A catástrofe que recentemente assolou o país trouxe de novo para o debate público uma realidade tantas vezes esquecida: as assimetrias socioterritoriais persistem e o interior continua a viver entre a resiliência e a invisibilidade.

Há um erro recorrente na forma como olhamos para o interior: ou o retratamos como espaço de carência e atraso, ou o romantizamos como reserva moral e paisagística. Nem uma coisa, nem outra. É território de trabalho, inovação, pensamento crítico e construção comunitária. É espaço onde se experimentam respostas concretas a problemas complexos.

No Vale de Lafões encontramos dois exemplos que desmontam a narrativa simplista da periferia passiva. O InSitu, festival inovador e pioneiro dedicado à imagem de natureza, mobiliza escolas, profissionais e amadores, convidando a comunidade a olhar o território com atenção e responsabilidade. É política pública do Município de Vouzela, cultura e pedagogia na defesa da natureza e do ambiente.

A poucos quilómetros, com sede em Oliveira de Frades, a Assol, instituição de solidariedade social, recusa acomodar-se. Trabalha com pessoas com deficiência e apoia as suas famílias a partir de uma pergunta essencial: isto serve as pessoas? Não segue modas, não replica modelos sem reflexão. Questiona, avalia, reformula. Investe na integração regular no mercado de trabalho. Assume que a autonomia se constrói em interdependência, em rede, em comunidade.

Esta prática está bem expressa no livro Continuar a Caminhar para Avançar, da autoria de Mário Pereira, um dos fundadores da Assol. Abrange mais de mil pessoas e tem cerca de 500 parcerias.

São exemplos de que o interior não é sinónimo de imobilismo. Pelo contrário, muitas vezes é fora dos grandes centros que se ensaiam práticas inovadoras, mais próximas das pessoas e menos reféns de agendas mediáticas.

O problema é estrutural. Enquanto as políticas públicas continuarem excessivamente centralizadas, pensadas a partir de gabinetes distantes da realidade concreta, as assimetrias manter-se-ão. Combater desigualdades territoriais não é distribuir fundos de forma avulsa, nem anunciar medidas após cada crise. É integrar o território na decisão, ouvir quem lá vive e trabalha, planear e avaliar impactos.

Desenvolvimento não se resume a indicadores económicos, é acesso a serviços, mobilidade, cultura, inclusão, participação e dignidade. É garantir que uma criança numa aldeia tem as mesmas oportunidades que uma criança numa capital de distrito. É assegurar que uma pessoa com deficiência encontra respostas que promovam autonomia real e não apenas proteção formal.

O interior não quer ser objeto de compaixão. Quer ser sujeito na decisão. É tempo de ajustarmos a lente: menos discursos circunstanciais e mais compromisso estrutural. Porque o país só será verdadeiramente coeso quando deixar de tratar o interior como margem e passar a reconhecê-lo como centro estratégico de construção coletiva.

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