A nova arquitetura global dos mercados financeiros

Luís Tavares Bravo

Economista. Presidente do International Affairs Network

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A tokenização de ativos pode bem estar a viver o seu momento “internet de 1996”: ainda longe da adoção massiva, mas já suficientemente madura para que os principais operadores financeiros do mundo estejam a reconstruir a infraestrutura dos mercados de capitais. E 2026 será relevante. Não porque a tecnologia tenha surgido agora, mas porque, pela primeira vez, os principais intervenientes do sistema financeiro global parecem ter concluído que a transição para a Web3, assente em blockchain e na tokenização de ativos, faz parte do futuro dos mercados financeiros.

Existem três razões que sustentam esta convicção: a legitimidade institucional da tecnologia, a dimensão da oportunidade económica e o seu potencial para transformar ativos muito para além dos mercados financeiros tradicionais.

Em primeiro lugar, a legitimidade. Durante anos, a tokenização foi associada ao universo das criptomoedas e à periferia do sistema financeiro. Hoje, o movimento vem do seu centro. Quando instituições como a Nasdaq, a DTCC ou os maiores bancos internacionais investem recursos, infraestruturas e capital reputacional nesta transformação, estamos perante algo mais do que uma inovação tecnológica. Estamos perante uma aposta estratégica dos mercados financeiros globais.

Depois, a dimensão da oportunidade importa. O Citibank, num relatório publicado este mês, estima que o mercado de ativos financeiros tokenizados possa crescer dos atuais 17 mil milhões de dólares para cerca de 5,5 biliões de dólares até 2030. Trata-se de uma expansão superior a 300 vezes em poucos anos. O mais relevante é que este crescimento parte de uma base ainda reduzida, sugerindo que estamos numa fase comparável aos primeiros anos da internet comercial. Mais do que uma tendência, a tokenização começa a afirmar-se como uma nova infraestrutura financeira e digital.

Por fim, o impacto vai muito além dos ativos financeiros tradicionais. A tecnologia blockchain permite criar uma infraestrutura digital para o registo e transferência de propriedade, enquanto a tokenização permite representar ativos do mundo real nesse novo ambiente. Imobiliário, infraestruturas, energia, propriedade intelectual ou créditos de carbono podem beneficiar de novas formas de financiamento e acesso a investidores. A blockchain não é a história, é a infraestrutura. A história pode muito bem ser a tokenização de ativos financeiros e reais, permitindo a geração de abundante liquidez em ativos que tradicionalmente estão restritos, ou fora do menu dos investidores.

Portugal deve acompanhar esta evolução com particular atenção. Seja na revitalização do mercado nacional de capitais, seja na criação de produtos, onde existem oportunidades que não devem ser ignoradas. A economia azul constitui um exemplo, onde a tokenização de créditos de carbono azul, ativos ligados ao mar ou projetos de sustentabilidade oceânica poderá abrir novas vias de financiamento onde Portugal possui vantagens competitivas. Afinal, num país historicamente marcado pela reduzida dimensão do mercado de capitais, toda a inovação capaz de aproximar ativos de investidores merece ser levada a sério.

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