A normalização do insulto

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Não, este não é um texto sobre a degradante erosão da retórica parlamentar, do qual desapareceu todo e qualquer sinal de subtileza e elegância nos debates. Nem sequer é, de forma directa, sobre a polémica futebolística da última semana, mesmo se esse possa ser um útil ponto de partida. Porque o futebol é uma “indústria de sucesso” e a via que aparenta estar mais acessível para muitas crianças e jovens sem outro tipo de horizontes ultrapassarem as limitações do seu quotidiano ou mesmo para adultos para quem o pináculo do tal “sucesso” é a “marca Ronaldo”. Porque desapareceu da sociedade mediatizada outro tipo de figuras que sejam apresentadas como exemplares e modelos a seguir pela sua conduta, pelo seu exemplo, pelo seu contributo para o bem comum.

Por isso, desde a chamada “tenra idade” o desporto, em especial o futebol, surge como o mundo do qual querem fazer parte, já não apenas os rapazes, mas a maioria dos jovens, para quem os estudos não garantem uma futura segurança profissional ou financeira. E a tendência é para replicar os exemplos de quem se admira, individualmente ou como tribo (clube).

O problema é que, por muito que se envernizem as montras de uma modernidade falhada, os costumes pouco evoluíram ou, pelo coxntrário, regrediram no modo como se encara a competição, os adversários e as contrariedades. A linguagem empobreceu e, no desporto, a expressividade ou é hiperbólica (no comentário) ou vernacular (entre os participantes). E é considerado natural, normal, próprio deste contexto. Só que tudo continua a transbordar para além desse contexto e normalizou-se em qualquer tipo de disputa quotidiana.

Repare-se que da polémica sobre o que terá dito o jogador do Benfica ao do Real Madrid esteve quase ausente qualquer preocupação em considerar que o recurso ao insulto está errado, Apenas se discute “qual” o insulto que terá sido proferido. Racista, homofóbico ou outro? Não está em causa o tipo de comportamento, de agressão verbal, porque é “normal”, e quem não compreende a especificidade futebolística merece ser insultado.

Por exemplo, as “entidades reguladoras” do futebol internacional estão muito sensíveis a determinadas ofensas (e bem), mas consideram normais outras, como tecer, por exemplo, considerações bastante contundentes sobre a moralidade ou eventual conduta sexual mais duvidosa das mães, mulheres ou irmãs dos jogadores.

Se recuarmos ao episódio entre Materazzi e Zidane, foi tida como “normal” a provocação verbal do italiano e apenas criticada a reacção do francês. Até podem estar previstas outras condutas passíveis de castigo no Código Disciplinar da FIFA, mas é certo e sabido que quase tudo é permitido e tolerado.

E é assim que a petizada é “iniciada”, a destratar o adversário como inimigo a quem se pode e deve rebaixar por todos os meios. E o que pode a Escola perante o Futebol? Bem pode Guardiola dizer para pagarem melhor aos professores. Só se forem buscar o dinheiro às Arábias.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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