A máquina de nos tornar maquinismos

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Je est un autre

Rimbaud

Eu é um outro – quando Rimbaud exprimiu esta máxima abordou o essencial da escrita e da arte: procuramos, por muito que nos mantenhamos agarrados ao nosso pobre eu, essa capacidade de ser outro que reside na invenção de personagens e situações fictícias, na tensão com as palavras e os seus sentidos que trabalha toda a poesia, na entrega às cores e aos sons, para além da mímese, na busca de um fator de perturbação, que alargue e ilumine a nossa percepção do mundo.

Toda a simplificação e redução da capacidade de invenção de mundos possíveis e de identificação com o outro de nós mesmos atenta contra a nossa condição humana. O fascínio pela mecanização da Humanidade ou pela sua superação por máquinas pós humanas tem que ver com essa vontade, que é uma pura vontade de poder, vontade de aniquilar no género humano todo o seu potencial de liberdade.

Nesse sentido, o projeto, alegadamente atribuído às máquinas que criámos, de nos destruir, é na realidade a máscara dessa vontade de poder insaciável, que quer formatar o humano à medida de um instrumento mecânico, de um escravo sem qualquer capacidade de revolta.

A ilusão dos ludditas, que parece estarmos a repetir, foi a de atribuir às máquinas que tornaram possível a Revolução Industrial o desapossamento dos trabalhadores do sentido do seu trabalho, que decorria de um processo de transformação social. As máquinas eram instrumentos apenas de um projeto novo de poder, humano, demasiado humano.

As máquinas que inventámos só nos irão matar se para isso forem programadas, tal como, neste momento, elas só infringem as regras e invadem domínios reservados de empresas concorrentes porque nada na sua concepção e montagem foi destinado a impedir essas violações, do mesmo modo que a desregulação financeira fomenta a liberdade de especulação e propicia a eclosão de crises.

Escrevo estas palavras na perfeita consciência de que estou a abordar assuntos que mal conheço. Serão intuições ou simples wishful thinkings? Seja como for, exprimo aqui ao mesmo tempo o meu medo e a minha esperança. Porque se limitarmos a nossa “consciência antecipatória” (Ernst Bloch, no Princípio Esperança), sacrificando-a ao eterno e conformado presente do “there is no alternative – TINA”, estamos na verdade a mutilarmo-nos como seres humanos e a aceitar um destino de máquinas subalternas.

O debate em curso sobre a Educação não pode ocultar, atrás de números, percentagens e tabelas, a degradação cultural que a redução ao mínimo dos estudos históricos, literários e artísticos no ensino secundário tem vindo a provocar nas últimas décadas. A diminuição da exigência é um mal: mas a diluição dos objetivos é um mal maior.

Mas não serão os nossos medos tão exagerados como todas as previsões de fim do mundo, com que o sempre atual pensamento apocalíptico nos tem brindado, por todos os séculos? Não serão um modo mais de nos tornar resignados a todos os horrores e incapazes de nos movermos contra tudo o que nos limita e ameaça?

Eu não sei. Apenas pergunto.

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