A mão que impõe a rolha no debate do custo de vida

João Oliveira

Eurodeputado pelo PCP

Publicado a

Por que não quer, a maioria dos partidos e deputados, discutir o que ao povo mais diz respeito, nem decidir o que melhor pode servir os seus interesses?

A pergunta vem a propósito das recusas em debater o aumento do custo de vida no Parlamento Europeu. Mas o problema não é só o da falta do debate político, é sobretudo o da falta de uma política que trave o aumento do custo de vida.

Só na sessão plenária de Setembro o PCP fez a proposta por duas vezes.

Primeiro, ainda antes de estar fixada a agenda da sessão plenária. A proposta apresentada visava a inscrição de um debate sobre o aumento dos preços da energia e dos combustíveis e os seus impactos no aumento geral dos preços que encarecem o custo de vida. Apesar de reconhecida a atualidade e importância do tema, não houve maioria entre os grupos políticos para que a proposta fosse por diante.

Depois, já no arranque da sessão plenária, propôs-se um debate sobre a decisão tomada pelo Banco Central Europeu de aumentar as taxas de juro. A proposta era a de que o Parlamento Europeu não ficasse à margem desta discussão, sobretudo considerando que se trata de uma decisão grave, com impactos diretos no aumento dos custos com a habitação e do financiamento das pequenas e médias empresas, tudo contribuindo também para agravar o aumento do custo de vida. Mais uma vez a proposta do debate foi recusada, com o registo da maioria dos deputados portugueses ter votado contra ou se ter abstido.

A falta de apoio à realização do debate não acontece por inércia, inação ou desvalorização da temática em causa. É pior que isso. É que fazer este debate implica discutir as medidas que têm de ser adotadas para travar o aumento do custo de vida e é disso que a maioria do Parlamento Europeu não quer tratar.

Para dar resposta às causas reais do actual quadro inflaccionário e travar o aumento do custo de vida é preciso por fim à agressão dos EUA ao Irão e à desestabilização do Médio Oriente.

É preciso adoptar medidas de regulação dos preços.

É preciso combater o aproveitamento e a especulação feita pelos grupos económicos no sector da energia e dos combustíveis mas também nos transportes ou na distribuição.

É preciso reverter os aumentos das taxas de juro. Eles têm impactos dramáticos para as famílias no aumento dos custos com a habitação, sobretudo em países como Portugal onde há um peso significativo de créditos com taxas variáveis. Mas tem também consequências graves para as MPME que vêem aumentar os custos com o seu financiamento, com inevitável repercussão nos preços dos produtos ou serviços.

Para que tudo isto se ponha em marcha é preciso uma política a favor dos interesses do Povo e que enfrente os grandes interesses económicos que continuam a amassar lucros com a desgraça do Povo.

Para isso é preciso coragem e vontade. E é por faltar a coragem e vontade para essa política que se aplica a lei da rolha no debate sobre o custo de vida.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
www.dn.pt