A magia da leitura

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Depois da entrada em vigor, em 2011, da Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea, aprovada em 2005, a capital algarvia tornou-se referência para os estudiosos e cultores internacionais da defesa e salvaguarda dos valores culturais materiais e imateriais. No último fim de semana, na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa teve lugar a apresentação do número de 2026 do Anais do Município de Faro, onde se evidencia a importância das iniciativas locais em prol da vida cultural, procurando garantir que a cidade de Faro esteja à altura do símbolo que se tornou, procurando ir além das intenções ou das proclamações.

Com emoção, a memória do poeta António Ramos Rosa, sob cuja inspiração existe a moderna biblioteca da cidade, foi recordada num dos seus sentidos poemas, lido pela reitora da Universidade do Algarve, Alexandra Teodósio: “…Tudo estará comigo perto de uma nascente / e eu mover-me-ei entre noturnas veias / e sobre as pedras lisas. / Vejo os barcos da sombra entre as constelações / e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.”

O diálogo entre a sensibilidade poética e a razão afirma a importância do lugar mágico que é uma sala de leitura. Como salientou a diretora da biblioteca, Sandra Martins, o papel da rede de leitura pública, com as bibliotecas escolares, revela-se insubstituível, quer em reforço das iniciativas locais da cultura, quer como incentivo à aprendizagem e à valorização da sociedade, a começar nos mais jovens.

Num tempo em que a inovação tecnológica avança a olhos vistos, descobre-se que a leitura e a escrita são decisivas para o desenvolvimento mental, prevenindo-se o empobrecimento do vocabulário e de conhecimentos perdidos na informação, em contraste com os progressos globais. Enquanto algumas novas tecnologias se tornam obsoletas, vemos que o livro em papel não perde a sua importância e que a caligrafia desenvolve capacidades, cuja perda é perniciosa para a vida de todos. Isto, sem prejuízo dos avanços alcançados na microinformática ou na chamada Inteligência Artificial.

As comparações internacionais no domínio da Educação e formação não podem dar lugar a análises simplificadas. Há grandes tendências que exigem orientações de prazo largo, centradas no rigor e na exigência, e numa cooperação alargada que não se esgote em meras intenções individuais que não ganham continuidade.

O município e a Universidade correspondem a contribuições decisivas no sentido de haver um planeamento e uma coordenação eficaz. Desde o poeta ao investigador, ao cientista, ao historiador, ao jornalista até ao cidadão comum, do que se trata é de dar lugar ao normal funcionamento das instituições, sem gestos espetaculares, mas com a serena determinação de corrigir os erros e de recusar as ilusões que a demagogia alimenta.

Ao lerem-se estes Anais, compreende-se a ligação necessária entre pensamento e ação. Falando de uma questão crucial como é o Mar Português, o Almirante Silva Ribeiro diz-nos: “O mar continua a favorecer quem o compreende, o vigia, o organiza, e o integra numa visão estável do poder. Deixa de proteger, mais cedo do que se imagina, quem o trata como um dado adquirido.”

É assim para qualquer questão fundamental, na Educação, na Ciência e na Cultura. Urge estar atentos e saber planear e prevenir. E a magia da leitura está, no fundo, na partilha do saber de experiências feito.