O Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, levou recentemente o termo da moda “longevity” (longevidade) a um novo nível ao ordenar testes obrigatórios de testosterona para militares com 30 anos ou mais, numa iniciativa que descreveu como destinada a extrair o “melhor absoluto” das forças armadas.Hegseth afirmou que esta abordagem de tolerância zero em relação à deficiência de testosterona foi concebida para restaurar e otimizar a prontidão militar e proteger a “longevity”.As declarações já desencadearam controvérsia nos Estados Unidos, com especialistas em medicina a alertarem para os potenciais riscos para a saúde associados a esta política.O que me chamou a atenção, porém, foi a palavra que voltou a surgir: longevidade.Será que a fórmula da longevidade é realmente assim tão simples? Aumentar os níveis de testosterona?A longevidade é frequentemente confundida com o simples facto de viver mais tempo, em vez de significar prolongar os anos de vida saudável, promover um envelhecimento saudável e desenvolver políticas para uma população cada vez mais envelhecida.A esperança média de vida praticamente duplicou ao longo do século XX.Os antibióticos, as vacinas, os avanços da medicina, os cuidados de saúde preventivos, a maior consciencialização para o exercício físico e as campanhas antitabágicas contribuíram para este progresso.Em Portugal, a esperança média de vida à nascença atingiu aproximadamente os 82,9 anos, mais de três anos acima dos Estados Unidos.A esperança média de vida em Portugal era de 73,2 anos em 1985 e de apenas 61 anos em 1950.Isto exige uma revisão das políticas a todos os níveis, talvez começando por perceber “como lidar com a economia prateada”.A professora Celine Abecassis-Moedas, diretora do Center on Longevity Leadership da Universidade Católica, dedica-se precisamente a esta questão.A investigadora destaca que o número de trabalhadores com 65 ou mais anos em Portugal mais do que duplicou na última década, atingindo os 244.800, enquanto o grupo dos 55 aos 64 anos cresceu 68%, para 1,05 milhões de pessoas. Este crescimento é mais de três vezes superior ao registado entre os trabalhadores com menos de 35 anos.Segundo Abecassis-Moedas, o desafio passa por “Dentro das empresas, isso começa por mudar a conversa de “wellness” para produtividade e liderança.A parte mais incómoda é a mentalidade de que as empresas estão menos dispostas a investir em trabalhadores com mais de 55-60 anos: ‘’não há recrutamento, nem formação, nem progressão na carreira.Mas a matemática é simples: à medida que a população envelhece, entram cada vez menos jovens no mercado de trabalho, pelo que as empresas vão precisar dos trabalhadores mais velhos, quer tenham planeado isso ou não”, afirmou.Na nossa conversa, apontou para um estudo da Universidade de Yale que mostra que 45% das pessoas com 65 ou mais anos registaram melhorias cognitivas ou físicas ao longo de 12 anos entre aquelas que acreditavam que o envelhecimento também pode trazer benefícios.“Na prática, o mecanismo mais eficaz continua a ser equipas intergeracionais, trabalhar lado a lado, não em programas segregados por idade ‘’, disse.“Não é responsabilidade social, é vantagem competitiva de talento e inovação.”A longevidade e a sustentabilidade demográfica caminham lado a lado.Em 2025, Portugal registou mais de 87.700 nascimentos, o valor mais elevado da última década, impulsionado em grande medida pelo aumento do número de mães nascidas no estrangeiro.A longevidade não consiste em perseguir a juventude nem em aumentar os níveis de testosterona. Trata-se de criar sociedades onde as pessoas possam viver mais tempo, com melhor saúde e de forma mais produtiva, enquanto as gerações mais jovens asseguram o equilíbrio demográfico e o dinamismo económico necessários para sustentar essas vidas mais longas.