Portugal é um país pequeno, tão pequeno que, por vezes, parece viver convencido de que a sua relevância termina nas fronteiras que desenham o mapa. No entanto, existe um território onde Portugal continua a ser uma potência mundial, não é um território de terra nem de mar, é uma língua.O português é hoje falado por mais de 260 milhões de pessoas em vários continentes e é língua oficial de organizações internacionais, língua de criação literária, de diplomacia, de ciência, de negócios e de cultura. É uma das poucas heranças que Portugal deixou ao mundo que continua viva, em crescimento e com futuro.Mas uma língua não sobrevive apenas porque existe, sobrevive porque alguém a ensina, a promove, a traduz, a explica, a torna desejável. Sobrevive porque há quem faça diariamente o trabalho invisível de a levar a universidades, escolas, bibliotecas, centros culturais e comunidades espalhadas pelos quatro cantos do planeta.É por isso que a situação dos professores, coordenadores e leitores do Ensino Português no Estrangeiro deveria preocupar muito mais gente do que apenas aqueles que trabalham nessa rede.Estamos a falar de cerca de quatro centenas de profissionais que, em dezenas de países, representam muito mais do que uma disciplina escolar, são, tantas vezes, os primeiros embaixadores culturais de Portugal. São eles que apresentam Camões a estudantes estrangeiros, que ajudam a descobrir Pessoa, Saramago ou Agustina, que organizam conferências, ciclos de cinema, encontros literários e projetos de investigação. Garantem a manutenção e a ligação de milhares de jovens lusodescendentes à língua dos seus pais e avósNos últimos meses, muitos destes profissionais têm manifestado preocupação perante as propostas de revisão do regime jurídico do Ensino Português no Estrangeiro. As críticas apontam para uma combinação preocupante de precariedade, instabilidade profissional e degradação das condições materiais de trabalho. Entre os receios encontram-se a limitação das renovações das comissões de serviço, a ausência de uma carreira estruturada e alterações aos apoios de residência que poderão reduzir a atratividade de funções exercidas em países com custos de vida muito elevados, como já noticiado pelo Diário de Notícias. Ao mesmo tempo, os sindicatos denunciam que os salários permanecem desajustados face ao custo de vida atual e que muitos docentes enfrentam dificuldades de recrutamento e instalação. O próprio Governo reconheceu recentemente a necessidade de rever o estatuto e melhorar as condições financeiras destes profissionais. É significativo que tenha surgido uma petição pública e uma carta aberta subscrita por profissionais da rede, apelando à estabilidade e à valorização das condições de trabalho. Não se trata apenas de uma reivindicação laboral, antes de uma proposta para abrir uma discussão sobre a forma como Portugal encara a sua presença no mundo. Fará sentido fazer proclamar a importância estratégica da língua portuguesa e, ao mesmo tempo, fragilizar aqueles que a promovem diariamente?Nenhum país sério abandona os seus instrumentos de influência cultural. A França não o faz com a Alliance Française. A Espanha não o faz com o Instituto Cervantes. A Alemanha não o faz com o Goethe-Institut. Todos compreenderam há muito que a língua é uma forma de diplomacia, de poder simbólico e de afirmação internacional.Portugal também o sabe. O problema é que, demasiadas vezes, parece esquecê-lo.Celebramos justamente os números da lusofonia. Repetimos que o português é uma das línguas mais faladas do mundo. Orgulhamo-nos dos prémios Nobel, dos escritores traduzidos, dos músicos que cruzam fronteiras, mas tudo isso começa muito antes. Começa numa sala de aula em Bucareste, em Londres, em Paris, em Boston, em Seul ou em Maputo. Começa quando alguém decide aprender português e encontra do outro lado um professor capaz de lhe mostrar que esta língua vale a pena.As línguas não crescem sozinhas. São construídas todos os dias por pessoas concretas.Se Portugal acredita verdadeiramente que a língua portuguesa é um ativo estratégico, então terá de começar por cuidar daqueles que a mantêm viva longe de casa. Não por caridade ou simples nostalgia, mas porque o futuro internacional do país depende, em larga medida, deles.