A liberdade protege a conclusão, não a premissa

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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A liberdade de opinião protege a conclusão, nunca a premissa. Cada um tem direito a ser pró-russo, putinista, comunista, iliberal ou o que entender, e a dizê-lo em praça pública sem prestar contas a ninguém. O que nunca esteve incluído nesse direito foi inventar a premissa de que se parte. Os factos não são propriedade de quem argumenta, são o terreno comum onde o argumento se disputa. Quem falsifica uma data não está a exercer uma opinião: está a retirar aos outros a possibilidade de discordar com conhecimento.

Escrevi aqui, na semana passada, sobre um texto pró-russo que circulava nas redes. O incómodo é que material do mesmo género entra todos os dias pela porta da frente, com pivô, alinhamento e painel. Não por cumplicidade, mas por uma confusão que se instalou: a de que abertura de espírito significa dar palco igual a tudo. Não é censura exigir o contrário. É ofício.

Daí decorre o critério prático, que é o que interessa a quem dirige informação: o teste não é a posição, é o método. Um convidado que defenda que a NATO errou no alargamento está a fazer política e tem lugar em qualquer painel. Um convidado que sustente a mesma tese dizendo que a Rússia invadiu a Crimeia em 2008 está a fazer outra coisa, e o problema não é a tese, é a data. A primeira discute-se. A segunda corrige-se, em directo, e é para isso que existe um pivô.

Há um segundo erro, mais subtil, que é confundir equilíbrio com simetria. Há dias tive de dizer, a propósito de Ceuta, que uma parte da acusação de Sánchez estava documentada e outra não: sobre a Rússia há historial, máquina de Estado e relatórios; sobre Israel há crítica que nasce da sociedade civil e nenhuma prova de política de desinformação paga. Dar às duas o mesmo peso não é isenção: é trocar a análise pela conveniência. Um painel que reparte o tempo em partes iguais entre uma alegação documentada e outra sem prova já decidiu, e decidiu mal.

E há o que nunca chega a ser dito. Na mesma acusação, ninguém perguntou por Marrocos, a única potência que abriu aquela fronteira como arma, em 2021, à vista de todos. Aponta-se para onde o dedo não custa nada. A abdicação editorial não é apenas a falta de verificação. É também a escolha da direcção barata.

Por isso convém separar duas coisas que andam trocadas. Antena não é um direito, é uma decisão editorial. Um jornal que deixa de convidar quem lhe mentiu três vezes não censura ninguém, porque essa pessoa mantém intacta a liberdade de dizer o que quiser, onde quiser. Confundir “não te dou palco” com “silencio-te” é o que permite a quem foi apanhado a mentir apresentar-se como vítima na semana seguinte.

Nem é preciso determinar a intenção. Saber se o convidado é agente, proxy ou apenas alguém que acreditou numa mensagem de telemóvel é trabalho de serviços, não de redacções. À redacção pede-se o que sempre se lhe pediu: verificar antes de pôr no ar. A pergunta certa nunca foi: “De que lado está este senhor?”. Foi: “É verdade o que ele acabou de dizer?”.

A ambiguidade, quando elevada a doutrina editorial, deixa de ser abertura e passa a ser fraqueza. E a fraqueza, nesta guerra, é precisamente aquilo por que o adversário espera.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico 

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