A ditadura teocrática do Irão é um regime facínora, cruel e obscurantista que tortura, persegue e mata o seu próprio povo. A sua queda, a ocorrer, é uma boa notícia para os iranianos e para o mundo.O ataque militar dos EUA e de Israel ao Irão é uma violação do Direito Internacional com consequências catastróficas para a paz regional e mundial, que vai conduzir o mundo a uma escalada de violência, a uma tragédia humanitária e ao declínio económico.Revejo-me inteiramente nas palavras do Papa Leão XIV, quando “perante a possibilidade de uma tragédia de enormes proporções” dirigiu “às partes envolvidas o apelo sincero para que assumam a responsabilidade moral de parar a espiral de violência antes que se torne um abismo irreparável”.Tenho empatia pelos cidadãos iranianos perseguidos e torturados ou que perderam os seus entes queridos e que, muito compreensivelmente, festejam a possível queda do regime, mesmo que o futuro do país seja muitíssimo incerto. Mas dos líderes democráticos de países que são (ou eram) Estados de Direito exige-se mais. Exige-se que cumpram o Direito Internacional, sob pena de se criar um conjunto de precedentes que acabará com o instável equilíbrio mundial e com a paz e segurança coletivas.Quando a ordem jurídica é violada prevalece a lei do mais forte porque o Direito serve para proteger os mais fracos. Portugal, que é um país pequeno, tem o dever (e o interesse) de defender uma ordem mundial assente no rule of law, quer por razões éticas, quer por razões pragmáticas.Infelizmente, a lei do medo já se instalou mesmo em latitudes onde isso não era costume: refiro-me à relação entre a Europa e os EUA. Isso é notório em muitos dos discursos e comentários que temos ouvido, nos últimos dias, a propósito da utilização da Base das Lajes pelos EUA nesta operação militar e que salientam os perigos que adviriam para Portugal se recusasse ou dificultasse as pretensões americanas. O medo é justificado, uma vez que os EUA são hoje liderados por um autocrata narcisista, totalmente imprevisível, que é capaz dos atos mais absurdos e delirantes e que é o principal fator de risco para a paz e a segurança mundiais. Mas isso não pode pôr em causa o compromisso de Portugal com uma ordem internacional fundada nos princípios e valores da Carta das Nações Unidas, organização que, aliás, Trump tudo tem feito para humilhar e apoucar.Ali Khamenei era um monstro cruel. Trump está cada vez mais parecido com os ditadores loucos que, desde a antiguidade clássica, ficaram nos anais mais infames da história. Netanyahu é um carrasco que quer afastar as atenções do genocídio que comete em Gaza. Ambos pretendem ganhar as eleições internas que se realizam este ano nos seus países e não olham a meios - ou a número de mortos, mutilados e feridos - para atingir esse fim.O meu pensamento vai para as vítimas inocentes destes três homens. A começar pelas meninas (sempre as meninas!) que foram mortas no ataque a uma escola no Irão. Há uma célebre frase que diz que a verdade é a primeira vítima da guerra. A inocência também.