A jogada arriscada de Trump no Irão

Publicado a

A ofensiva norte-americana e israelita contra o Irão marca um daqueles momentos em que percebemos que a guerra mudou de natureza. Depois do que vimos em Gaza e na operação que levou à captura de Nicolás Maduro, tornou-se evidente que Washington e Telavive estão a usar até ao limite as suas esmagadoras vantagens tecnológicas e de intelligence. Em poucos dias, cinco dezenas de altos responsáveis iranianos foram eliminados, incluindo o próprio guia supremo, Ali Khamenei. Nunca o regime dos ayatollahs esteve tão exposto.

Esta estratégia tem uma lógica simples: evitar um conflito prolongado. Para a Administração Trump, uma guerra arrastada seria politicamente desastrosa. A base MAGA não quer aventuras militares clássicas, com colunas de blindados e milhares de soldados a atravessar desertos. Trump sabe que não pode repetir os erros do Iraque ou do Afeganistão, nem colocar os EUA em mais uma “guerra para sempre”. Precisa de vencer depressa e, muito importante, sem enviar tropas para o terreno.

É aqui que o Irão ainda tem alguma margem de manobra, embora escassa. O regime de Teerão já mostrou que está disposto a tudo para se manter no poder, incluindo massacrar milhares de civis, se for preciso. Se conseguir controlar a população e resistir o tempo suficiente, pode transformar esta ofensiva numa guerra de desgaste político para Washington. Ao mesmo tempo, tenta alargar o conflito aos países vizinhos e bloquear o Estreito de Ormuz, para causar o máximo de disrupção económica. Neste cenário, o tempo joga a favor do Irão.

"Se Trump falhar, o Médio Oriente ficará ainda mais instável e o regime iraniano será ainda mais agressivo. Mas se vencer, Trump conseguirá o grande prémio: redesenhar o mapa político do Médio Oriente e obter a ‘paz possível’ entre Israel e o mundo muçulmano.”
"Se Trump falhar, o Médio Oriente ficará ainda mais instável e o regime iraniano será ainda mais agressivo. Mas se vencer, Trump conseguirá o grande prémio: redesenhar o mapa político do Médio Oriente e obter a ‘paz possível’ entre Israel e o mundo muçulmano.”Jim Lo Scalzo / POOL

Mas há um problema evidente para os iranianos: quem aceitar hoje integrar o governo ou assumir chefias militares sabe que terá uma esperança média de vida que se mede em dias. A máquina de inteligência norte-americana e israelita está a operar com uma precisão inédita. Cada novo nome que surge para substituir os mortos passa imediatamente a ser alvo. Governa-se, neste momento, com a sensação permanente de que o chão se pode abrir a qualquer instante.

Do lado dos EUA e de Israel, a aposta é clara e passa por provocar a queda do regime. A mensagem enviada à população iraniana é transparente. Esta é a oportunidade para se insurgirem. Mas há um limite que não pode ser ignorado. Sem tropas no terreno, os Estados Unidos não podem garantir o sucesso de qualquer revolução. A História recente deixa um aviso duro. Em 1991, os xiitas do sul do Iraque levantaram-se contra Saddam Hussein, encorajados por Washington. Foram abandonados e massacrados, às mãos das mesmas tropas que a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos tinha acabado de derrotar e expulsar do Kuwait.

Trump está, assim, a levar a cabo a jogada mais arriscada da sua Presidência. Se falhar, o Médio Oriente ficará ainda mais instável e o regime iraniano, ferido mas sobrevivente, será ainda mais agressivo, imprevisível e determinado em desafiar o Ocidente. Porém, se vencer - e é esse o prémio que Trump realmente procura - poderá redesenhar o mapa político da região.

Recorde-se que o Irão é a última potência do Médio Oriente que recusa qualquer entendimento com o Estado de Israel. A maioria dos países árabes, um após outro, deixou de ver Israel como inimigo existencial desde os anos 70, de forma declarada ou tácita. Teerão, pelo contrário, financia e alimenta uma rede de grupos armados, como o Hamas e o Hezbollah, que mantêm viva a guerra contra Israel e contra o Ocidente. O fim dessa oposição abriria a porta a um novo Médio Oriente e talvez até a uma era de estabilidade inédita, de “paz possível” entre Israel e o mundo islâmico.

Mas esse futuro só será possível se os EUA e Israel souberem ser magnânimos na vitória. A paz duradoura na região exige que os palestinianos possam finalmente viver com dignidade, liberdade e autodeterminação na sua própria terra. Sem isso, qualquer vitória militar será apenas mais um capítulo de um conflito que nunca acaba.

Diário de Notícias
www.dn.pt