A intolerância ao não saber

Rita Alves Feio

Psicóloga organizacional

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Há uma resposta que parece estar a desaparecer das nossas conversas: “Não sei."

Tornou-se desconfortável. Espera-se que respondamos com confiança, que tenhamos opinião, que saibamos decidir. Dizer "não sei" parece revelar falta de preparação, de competência ou de interesse, quando pode ser apenas o reconhecimento honesto de que ainda não temos uma resposta.

O verdadeiro problema não é não sabermos. É termos deixado de considerar aceitável dizê-lo. Vivemos numa cultura que valoriza a rapidez. As decisões são para ontem, as respostas têm de ser imediatas e as dúvidas eliminadas rapidamente.

A tecnologia veio acelerar este processo. Encontrar uma resposta nunca foi tão fácil. Poupamos horas, dias, semanas a esclarecer uma dúvida. Basta uma pesquisa ou uma pergunta a um sistema de inteligência artificial para obter uma resposta em poucos segundos. Uma resposta pode ser imediata. A compreensão nunca é.

Este é um dos paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil ter respostas, mas parece cada vez mais difícil admitir aquilo que desconhecemos. Como se o “não sei” tivesse deixado de ser o ponto de partida para a descoberta para se tornar um sinal de incompetência. Na verdade, é aí que começa a aprendizagem.

Durante muito tempo valorizámos as respostas. Talvez tenha chegado o momento de voltar a valorizar as perguntas. Se as respostas são cada vez mais acessíveis, as perguntas tornam-se cada vez mais valiosas. Hoje, o verdadeiro desafio já não é encontrar respostas. É fazer as perguntas certas.

Nas organizações esta mudança é crítica. Falamos muito de inovação, criatividade e aprendizagem. Mas poucas vezes criamos espaço para dizer "não sei". Espera-se que os líderes tenham as respostas e que as equipas consigam resolver os problemas no imediato. No entanto, raramente os desafios mais complexos se resolvem à velocidade da primeira resposta. É necessário espaço para questionar, rever, explorar opções e perspectivas diferentes. As grandes mudanças começam, quase sempre, com uma pergunta.

É difícil inovar quando não existe espaço para fazer perguntas, testar hipóteses e admitir que ainda não sabemos. Se queremos organizações inovadoras, em crescimento, talvez devêssemos deixar de valorizar quem responde primeiro e começar a reconhecer quem faz melhores perguntas. Uma decisão tomada por impulso pode demorar muito mais tempo a corrigir do que o tempo que se poupou ao tomá-la.

Num mundo onde as respostas chegam cada vez mais depressa, talvez a competência mais relevante seja a humildade para reconhecer o que ainda não sabemos e a curiosidade para continuar a perguntar. Porque é nesse espaço de dúvida que nascem a aprendizagem, a criatividade e a inovação. Porque, no final, ganhamos todos: pessoas, organizações e sociedade.

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