A notícia da morte da Igreja Católica continua a ser uma previsão algo exagerada. Mesmo no Ocidente secularizado, aquilo que se transforma não é a fé, mas a forma como é vivida. A era digital alterou a maneira como trabalhamos, nos relacionamos, participamos civicamente e consumimos informação; seria estranho que a espiritualidade permanecesse inalterada. Uma instituição com dois mil anos, que sobreviveu a impérios, guerras, revoluções e totalitarismos, não desaparece apenas porque o mundo descobriu novas rotinas de domingo. Adapta-se, sobrevive e reconfigura-se.. Essa transformação é visível na procura de sentido que atravessa sociedades supostamente pós-religiosas. Nos Estados Unidos, as dioceses católicas registaram, em 2026, aumentos médios de cerca de 38% no número de adultos que decidiram converter-se ao catolicismo, com algumas a atingirem máximos de duas décadas. O The New York Times descreveu recentemente este fenómeno como “um regresso inesperado ao sagrado num país que julgava ter ultrapassado a religião organizada”, sublinhando que muitos jovens procuram “um quadro moral estável num tempo de incerteza”. Em França, um dos países mais secularizados da Europa, mais de 20 mil pessoas receberam o batismo na última vigília pascal, num aumento de cerca de 20% face ao ano anterior, segundo dados divulgados pela Conferência Episcopal Francesa e amplamente noticiados pelo Le Monde. Estes números não significam um regresso triunfal ao passado, mas mostram que a religião continua a oferecer algo que o consumo e o hedonismo não conseguem substituir: profundidade, exigência e sentido. O cristianismo não promete conforto, mas sim um caminho. “Tome a sua cruz e siga-Me.” E, para muitos, isso basta.."O papa Leão XIV demonstra uma leitura lúcido da Inteligência Artificial e dos desafios éticos do nosso tempo. Juntamente com um forte sentido de justiça e coragem para defender a paz e os mais fracos.”.Ao mesmo tempo, o pontificado de Francisco teve um efeito decisivo na forma como o catolicismo é percebido. Num tempo de polarização identitária, em que tudo se divide entre tribos, Francisco insistiu que a mensagem da Igreja é para todos, sem exceção. Isto traduziu-se na capacidade de recentrar o catolicismo na misericórdia, na justiça e no encontro, libertando a instituição da imagem estreita que alguns setores mais conservadores procuravam impor. Mas também se traduziu no reafirmar de uma ideia muito poderosa: a de que, no seio da Igreja, as tribos dos nossos dias devem saber coexistir. Há católicos mais ou menos conservadores, de todas as cores, origens, partidos, proveniências e orientações, mas todos pertencem a uma mesma comunidade. A Igreja Católica não é uma instituição italiana ou sequer europeia. Não é, tão pouco, “branca” ou “Ocidental”. É católica, isto é, universal. Se alguém tinha dúvidas, Francisco tornou isto claro.Por outro lado, o sucessor de Francisco, Leão XIV, está a revelar-se um pontífice inteligente, com uma leitura lúcida do fenómeno da Inteligência Artificial e dos desafios éticos contemporâneos. Junta-se a isto o seu notável sentido de justiça, a defesa firme dos mais fracos, a promessa de combater de forma firme os abusos sexuais no seio da Igreja e a condenação inequívoca – e corajosa – de todas as formas de violência e opressão. O tempo dirá se estaremos perante um grande papa, capaz de se tornar uma referência moral para crentes e não-crentes, mas até agora os sinais parecem ser algo promissores.