O Prémio Nobel da Economia deste ano, atribuído a Robert E. Hall e Michael Woodford, traz à luz um paradoxo que só existe porque o poder não se consegue, por natureza, limitar. E quem sofre com isso são as populações. Sempre.
A Academia laureou estes académicos por terem construído a ponte matemática entre a micro e a macroeconomia, reconhecendo nas fórmulas uma verdade que o bom senso – que pouco existe hoje nas escolas, nas bancadas das faculdades e nas redações – diria ser inegável: a economia real funciona de "baixo para cima", de quem compra e vende, inova, produz mais-valia e consome.
Só que o objetivo premiado foi fornecer um manual de instruções refinado para que os bancos centrais continuem a tentar gerir o sistema de "cima para baixo", como andam a fazer há mais de um século, criando ciclos de expansão e retração sem fim (dizendo-nos que é inevitável e esquecendo, convenientemente, que foram essas intervenções que criaram a escala e a frequência dos ciclos modernos de 'boom and bust', como apontam tantos economistas).
Dito de outra forma: por um lado, ainda que atribuído a autores neokeynesianos, o prémio valida a já velha, mas pouco aplicada, premissa da Escola Austríaca do pensamento económico de que não se podem ignorar as decisões diárias dos indivíduos face aos incentivos reais; por outro, entrega essa descoberta nas mãos dos planeadores centrais do costume, que insistem em tratar a economia humana como uma máquina previsível...
A realidade, como bem temos visto, recusa-se a caber nestes modelos matemáticos. As taxas de juro não são meros botões num painel de controlo ou algoritmos num computador. São o preço do tempo e do risco. Ao distorcê-las para zero ou terreno negativo, através de lógicas de intervenção keynesiana, os bancos centrais emitem falsos sinais ao mercado.
A história sempre demonstrou o resultado: o Efeito Cantillon em pleno esplendor – o dinheiro artificial e barato flui primeiro para o topo da pirâmide, inflacionando o preço dos ativos (imobiliário, bolsas). Para a base da sociedade civil, que vive do trabalho, sobra a fatura do imposto invisível da inflação – patente, também, hoje, nesta crise de habitação sem precedentes.
A injeção de dinheiro no mercado no período do covid foi o mais recente exemplo do choque entre o planeamento central e a realidade humana, com efeitos logo em 2023, com a inflação galopante. E após o BCE subir os juros para a travar, o modelo previa que os bancos comerciais recompensassem a poupança. Só que a banca reteve a margem de lucro (em parte porque tinha excesso de liquidez, por culpa do próprio BCE, das referidas injeções de capital do tempo da covid, pelo que não tinham qualquer incentivo a pagar mais por depósitos). Como resposta, as famílias portuguesas, em puro instinto orgânico de sobrevivência, contornaram o sistema financeiro e inundaram os Certificados de Aforro. A ação descentralizada foi tão forte que obrigou o Governo a intervir politicamente para proteger a banca da sua própria inércia. Tudo a correr bem, portanto…
Por que razão continuamos, então, presos a modelos de gestão centralizada que falham ciclicamente? Entra a Teoria da Escolha Pública, que James M. Buchanan e Gordon Tullock criaram em 1962, e ajuda a explicar. Mais uma vez seria um pouco de bom senso, não fosse preciso haver estudos para tudo: a classe política não age por altruísmo (obviamente), mas pela sua sobrevivência eleitoral num ciclo curto de quatro anos (quando o são). Deixar o mercado corrigir naturalmente os seus excessos, expurgando os maus investimentos, exige uma dor a curto prazo que custa eleições. É politicamente irresistível abraçar a ilusão da dívida e do estímulo fácil, atirando os custos reais para as gerações que ainda não podem votar.
É por isso que o keynesianismo dá um conforto absoluto à classe política. As teorias do economista britânico John Maynard Keynes entregam aos governos o álibi académico perfeito – validado por modelos e equações matemáticas – para intervirem ativamente e tentarem "corrigir" os ciclos orgânicos do mercado. Ao legitimar o défice, a impressão de dinheiro e o endividamento como ferramentas vitais de estabilização, o modelo permite aos políticos comprar a sua sobrevivência eleitoral no curto prazo, distribuindo ilusões de riqueza enquanto atiram a pesada fatura da inflação para as gerações seguintes.
O resultado a médio e longo prazo desta distorção centralizada é invariavelmente desastroso para a sociedade civil. Aliás, a História demonstra que, na sua capacidade de mascarar a irresponsabilidade estatal, destruir os sinais de mercado e corroer silenciosamente o poder de compra através do imposto invisível da inflação, pior do que o keynesianismo, só mesmo o marxismo.
De resto, se este Nobel tem alguma utilidade, deveria ser a de obrigar a afixar, em letras garrafais, em todos os gabinetes ministeriais portugueses: "A ECONOMIA FAZ-SE DE BAIXO PARA CIMA." A prosperidade de uma nação é um ecossistema vivo que floresce da ação livre de milhões de indivíduos na base, e nunca de uma folha de cálculo imposta a partir do topo.