A Ilha de Kharg ... o barómetro da guerra!

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Diz-se frequentemente que a geografia é o destino. No Golfo Pérsico, em março de 2026, o destino da República Islâmica do Irão continua a medir-se nos mesmos escassos 20 quilómetros quadrados da Ilha de Kharg. O que era uma ameaça latente transformou-se, em poucos dias, num dos pontos mais quentes do conflito em curso entre os EUA/Israel e o Irão.

No início do conflito, Kharg  aparecia como o “pulmão financeiro” do regime iraniano, com cerca de 90% das exportações de crude iraniano a passar pela ilha.

O que mudou desde então?

Só entre os dias 13 e 14 de março de 2026, as forças americanas atingiram mais de 90 alvos militares iranianos na ilha de Kharg (defesas antiaéreas, base naval, instalações de armazenamento de minas navais, bunkers de mísseis e infraestruturas logísticas da Guarda Revolucionária Islâmica). O Presidente Donald Trump descreveu a operação como uma das mais poderosas na história do Médio Oriente, afirmando que os militares americanos “totalmente obliteraram” os alvos militares.

Interessante e importante foi o facto de a infraestrutura petrolífera, propriamente dita, ter sido  deliberadamente poupada. Trump justificou a decisão “por razões de decência”, mas emitiu um ultimato claro: “se o Irão continuar a interferir com a navegação no Estreito de Ormuz (incluindo o bloqueio parcial ou ataques a navios), os EUA reconsiderarão imediatamente e atacarão os terminais de carregamento, tanques de armazenamento e oleodutos.

A ilha continua a funcionar como terminal petrolífero. Fontes iranianas e dados de rastreamento de petroleiros (Kpler e outros) indicam que as exportações de crude via Kharg prosseguem, embora a níveis mais modestos que o pico pré-conflito — na ordem de 1,1 a 1,6 milhões de barris por dia em média, com picos pontuais. O Irão tem beneficiado do aumento do preço do petróleo (acima dos 100 dólares por barril em alguns momentos) e do facto de, paradoxalmente, ser um dos poucos exportadores do Golfo ainda capaz de operar através de Ormuz, enquanto outros produtores enfrentam disrupções.

Hoje, no novo contexto estratégico, Kharg deixou de ser apenas um “barómetro da paciência ocidental” e passou a ser um refém estratégico no conflito mais amplo. O regime iraniano já reforçou as defesas da ilha (minas, armadilhas costeiras, deslocação de pessoal militar e sistemas de defesa aérea), preparando-se para uma possível operação terrestre ou de ocupação americana.

Por sua vez, os EUA e Israel mantêm a pressão na ilha que é vista como a “garganta” ideal para estrangular a economia iraniana, sem necessidade de invasão continental. Rumores e relatórios indicam que Washington pondera até uma operação de tomada física da ilha para forçar a reabertura plena do Estreito de Ormuz.

Para Teerão, Kharg permanece o elo vital do crude que financia o aparelho repressivo interno e as milícias regionais. Um ataque direto aos terminais petrolíferos seria um “enfarte imediato” na economia do regime.

Relativamente ao impacto económico para Portugal, os preços do petróleo subiram mais de 40% desde o início da escalada, com volatilidade elevada. A Europa, e Portugal em particular, estão a sentir drasticamente o reflexo nos custos energéticos e na inflação importada. A dependência europeia de importações e a sensibilidade da economia portuguesa a choques externos continuam a tornar Kharg um fator de risco direto. De facto, Kharg é hoje mais do que nunca o barómetro da guerra.

No entanto, a possibilidade de Washington decidir avançar para  um ataque direto à infraestrutura petrolífera ou tentativa de ocupação, é muito grande.

O mundo continua a observar Kharg com atenção redobrada. A ilha, que muitos teriam dificuldade em localizar num mapa, é agora um dos centros de gravidade de uma guerra que já redesenhou o equilíbrio de forças no Médio Oriente e ameaça prolongar-se.

A geografia, mais uma vez, impõe o seu destino — mas a decisão de até onde chegará o fogo aos terminais de Kharg ainda está nas mãos dos decisores em Washington, Teerão e Telavive.

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