Ao fim de 25 anos a trabalhar nos temas da sustentabilidade, tendo iniciado a carreira profissional em Portugal ouvindo um diretor de risco de uma grande instituição financeira, há duas décadas, perguntar-me, no início de um reunião sobre o tema, “Então menina, diga lá o que quer”, e agora ver o planeta a gritar por ajuda, e ter políticos internacionais e nacionais que continuam a dizer que este não é um tema económico nem de finanças, faz-me ter vontade de largar tudo e ir vender cafés para um bar de praia até que a subida das águas do mar o permita.
A loucura e a ignorância da maioria dos atuais líderes políticos contagia-nos a todos: contagia os mais novos, os mais velhos, os empresários, os gestores, os universitários... a todos. Fica muito mais difícil encontrar argumentos que consigam convencer-nos de que o impossível pode acontecer, e que precisamos de deixar de ser egoístas para que a espécie humana consiga continuar a viver neste planeta com dignidade e bem-estar.
Com a Natureza não há conversações de paz. Não há estratégias dilatórias nem drones que sejam capazes de impedir um glaciar de partir, ou que consigam impedir uma estrada de rachar devido às chuvas, ou que evitem um fogo de invadir vilas e cidades em Portugal. Os drones podem ajudar ao combate, podem ajudar na prevenção, mas quando o ataque da Natureza surge, os drones não conseguem defender ou contra-atacar.
A verdadeira guerra que vivemos hoje é a guerra da ignorância e da cegueira. A ignorância e a cegueira subiram ao poder em vários locais do planeta terra. Existem ainda algumas almas com poder que continuam a desenvolver políticas em prol de um desenvolvimento digno do ser humano, mas são cada vez menos e com maior oposição.
Hoje em dia, e por incrível que pareça, são as contrapartidas de apoio ao desenvolvimento que lideram a existência de políticas modernas e atuais. Ou seja, quando um país ou uma organização multilateral apoia um país em desenvolvimento com dinheiro para o seu orçamento público, é exigido em troca que certas modernizações a nível político sejam feitas.
Hoje em dia, a grande maioria dessas modernizações dizem respeito à implementação de políticas que incluem os temas climáticos e ambientais nos investimentos públicos, na gestão das finanças públicas, no sistema fiscal, no Orçamento de Estado, etc. Algumas dessas contrapartidas são o desenvolvimento de uma taxonomia climática e social para o país, o desenvolvimento de uma estratégia de financiamento sustentável, a inclusão dos temas climáticos na Gestão das Finanças Públicas..
Esta inovação está a acontecer essencialmente na Ásia e na África. Tenho a sorte de trabalhar estes temas em vários países Africanos, onde os jovens são cada vez mais educados, profissionais, exigentes e cheios de responsabilidade e vontade por fazer mais e melhor. Na Europa em alguns poucos países. Em Portugal a ideia é ainda rejeitada por muitos daqueles que podem influenciar a política económica e fiscal deste país. Até parece que “Leiria” não aconteceu, até parece que os fogos não continuam a acontecer.
Ao fim de 25 anos a trabalhar nestes temas, em vários países Europeus e Africanos e com várias instituições internacionais, ainda me custa acreditar que há empresas e gestores, que são céticos relativamente à inclusão dos riscos ambientais e sociais na sua gestão. Com todos os canais de transmissão que existem entre ambiente e: o turismo, as matérias-primas, a disponibilidade de bens de alimentação, as infraestruturas, a inflação, as doenças e a emigração, como é que ainda temos empresas e fundos, em Portugal e não só, que se dizem “céticos” à incorporação dos riscos ambientais e sociais na sua gestão?
Quem é que irá investir em empresas que ignoram os principais riscos que defrontamos e com os quais não há nem capacidade de negociação nem de antecipação? Só existe a capacidade de adaptação. E se criar essa capacidade de adaptação for ignorado pelo Gestor e pelo Político, quem irá investir na empresa ou no país? Vocês investiriam?