Nos 90 anos do levantamento militar que levou à Guerra Civil espanhola o diário El Mundo publicou uma entrevista muito interessante com o professor Manuel Álvarez Tardío, catedrático de História do Pensamento Político na Universidade Rey Juan Carlos.O entrevistado assinala algumas condicionantes que, lá como cá, mutilam e manipulam a História. Como “a presença asfixiante de ideologia de memória”, que institui “o chamado dever de memória”, que nos constrange “a estar continuamente recordando algo que não vivemos, presos à falsidade de que as sociedades têm memória e estão obrigadas a saldar dívidas morais com o passado”.Esta “ideologia da memória” é um problema da “esquerda intelectual e académica”. Uma ideologia que, quanto à Guerra de Espanha, criou o mito de que o 18 de Julho foi um golpe militar da direita que veio interromper e destruir uma democracia plural e liberal.Para o entrevistado, as culpas do fim do pluralismo democrático na década de 30 em Espanha foram tanto das “direitas tradicionalistas”, como das “esquerdas operárias”. E do governo da Frente Popular, que deixou a violência das esquerdas à solta e paralisou a investigação policial depois do rapto e assassinato, em 13 de Julho de 36, de José Calvo Sotelo, o líder dos nacionais-conservadores – sabendo quem eram os culpados (militantes socialistas e guardas de Assalto).Foi também esta radicalização das esquerdas, com a violência activa de socialistas e anarquistas – da queima de igrejas, ao assassinato de padres e à ocupação de propriedades – a seguir à vitória de Fevereiro, que gerou a violência. Violência a que os falangistas foram os únicos a responder, replicando-a.Mas, durante a guerra, foi a esquerda que corporizou o maior massacre religioso moderno (mais de 7000 bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas), que alguns historiadores comparam às perseguições anti-cristãs de Diocleciano.Apesar de se tentar imputar toda a violência aos militares, à extrema-direita, ao “fascismo” – como também aqui acontece, com a História de Portugal –, a verdade é que tal violência foi desencadeada pelos vencedores da eleição de Fevereiro, com a violação da Constituição e dos direitos dos cidadãos espanhóis considerados “inimigos de classe”.Manuel Azaña, o presidente da República, vinha dos “moderados” da esquerda liberal e maçónica. Mas para Alvarez Tardío, Azaña não era um moderado, inocente dos futuros desastres da guerra; Azaña, com a sua “liderança nefasta” na Primavera de 1936, foi, claramente, um “dos responsáveis pela quebra da democracia republicana”. Isto porque, ao aliar-se à “esquerda operária”, abertamente antidemocrática e apostada em acabar com a propriedade privada e com o pluralismo, veio a causar a reacção dos militares.Assim, não foram os militares franquistas e os pró-fascistas de José António e da Falange os únicos culpados da Guerra Civil e do fim da República Democrática Espanhola.Ao tolerar a violência radical de uma parte da sociedade contra os seus inimigos e contra as leis da equidade e do tratamento por igual de todos os cidadãos, o governo frente populista da República criou a crise da qual havia de sucumbir. Pensar e defender o contrário, como parece ser a receita para a cobertura, por lá e por cá, da verbe recordatória do passado, tentando cobrar dívidas de sangue ou imaginárias, não será o melhor caminho. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia