A humanidade progrediu muito nos últimos 70 anos (I)

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

Publicado a

Analisar os últimos 70 anos (de meados da década de 1950 até ao presente) revela um dos períodos de maior transformação material e tecnológica da história humana. Se, por um lado, os indicadores básicos de sobrevivência e de tecnologia atingiram patamares nunca antes vistos, por outro, o impacto ambiental, crises de governança global e o aumento de riscos existenciais representam sérios retrocessos.

Comecemos por ver as áreas em que tem havido avanços mais expressivos [neste artigo], passando depois para as áreas onde a humanidade tem regredido [no próximo artigo], com base nos dados históricos de relevantes organizações internacionais.

Áreas de progresso

 

1. O progresso económico e social

 

Nos últimos 70 anos, a economia global passou por uma transformação radical. O PIB [real] mundial saltou de pouco mais de 5 biliões de dólares na década de 1950 para c. 115 biliões de dólares na atualidade.

Todavia, o ritmo de crescimento varia substancialmente entre blocos, com uma clara divergência no crescimento desde a década de 1970 entre algumas das economias mais maduras e a média global.

Por outro lado, a globalização, a liberalização do comércio internacional e as reduções tarifárias permitiram a criação de cadeias de valor globais que embarateceram os preços dos bens de consumo.

Porém, as maiores conquistas no salto civilizacional entre meados do século XX e o mundo atual são as atinentes à melhoria generalizada das condições básicas de vida.

A evolução de três dos indicadores mais cruciais para o bem-estar humano – o declínio da pobreza extrema, o aumento da longevidade e a universalização da educação básica – mostra que o mundo se tornou menos pobre, mais escolarizado e mais saudável.

Para compreender a escala do progresso socioeconómico global nos últimos 70 anos, vale a pena olhar para a evolução dos números relativos aos referidos indicadores.

2. Saúde global e longevidade

Nos últimos 70 anos, a transição epidemiológica – a mudança no padrão de como a humanidade adoece e morre – mostra melhorias significativas e conquistas palpáveis sustentadas por três indicadores-chave: a esperança de vida, a mortalidade infantil e as causas de morte.

Atentemos nos dados, números e contexto técnico desta transformação profunda.

2.1. Esperança de vida à nascença: o salto global

A evolução da esperança de vida no último meio século não foi apenas um ganho para as nações ricas; tratou-se de um fenómeno verdadeiramente global, embora com ritmos diferenciados.

  • O cenário em 1950: De acordo com o UN World Population Prospects, a média global de anos de vida à nascença fixava-se nos 46,5 anos. Em regiões como a África Subsariana e partes da Ásia, a média ficava frequentemente abaixo dos 40 anos.

  • O cenário atual (2024–2026): O relatório de revisão mais recente das Nações Unidas aponta que a esperança de vida global atingiu os 73,3 anos. Trata-se de um ganho líquido de quase 27 anos de vida em sete décadas.

  • A compressão das assimetrias: Países como a China viram a esperança de vida saltar de cerca de 40 anos (na década de 1950) para mais de 78 anos na atualidade. Mesmo após o forte impacto temporário da pandemia de COVID-19, que causou recuos globais entre 2020 e 2021, a longevidade recuperou a sua trajetória de crescimento na quase totalidade das regiões.

2.2. A queda drástica da mortalidade infantil (o motor da longevidade)

Muitas pessoas assumem que o aumento da esperança de vida significa que os idosos passaram a viver até mais tarde (o que também acontece), mas a grande revolução matemática da longevidade foi salvar as crianças nos primeiros anos de vida.

  • Taxa de mortalidade infantil (até 1 ano de idade): Em 1950, a taxa global de mortalidade infantil era de aproximadamente 140 mortes por cada 1.000 nados vivos (14%). Dados consolidados mostram que esta taxa colapsou para cerca de 25 por 1.000 atualmente — uma redução superior a 80%.

  • Taxa de mortalidade de menores de 5 anos (mortalidade infantil alargada): Historicamente, este é o indicador mais sensível para medir o desenvolvimento de um país.

    • Em 1950, cerca de 25% (1 em cada 4) de todas as crianças nascidas no mundo morriam antes de completar 5 anos.

    • Em 1990, a taxa era de 93,5 por 1.000 (cerca de 9,3%).

    • De acordo com dados da UNICEF e do grupo interinstitucional da ONU (UN IGME), a taxa global de mortalidade de menores de 5 anos desceu para 37,4 por 1.000 (cerca de 3,7%).

O impacto disto: Passámos de um mundo onde um quarto das crianças não chegava à idade escolar para um mundo onde a probabilidade de sobrevivência até aos 5 anos é de 96,3%.

2.3. A mudança radical nas causas de morte

Nos anos 1950, a esmagadora maioria das mortes mundiais ocorria devido a doenças transmissíveis (infeciosas), maternas, neonatais e nutricionais.

Com a massificação das vacinas (poliomielite, sarampo, difteria, e a erradicação total da varíola em 1980), a introdução de antibióticos em larga escala e a melhoria do saneamento básico, o perfil de mortalidade mudou radicalmente:

  • A transição: Hoje, cerca de 74% de todas as mortes globais de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) devem-se a doenças não transmissíveis (DNT), como doenças cardiovasculares, cancros, diabetes e doenças respiratórias crónicas.

  • Significado: Isto reflete que a humanidade conseguiu, em grande parte, “atrasar” o momento da morte. As pessoas já não morrem predominantemente na infância ou juventude por infeções agudas, mas sim em idades avançadas devido ao desgaste natural e biológico do corpo.

 

3. Redução da pobreza extrema

Nas últimas décadas, um dos marcos históricos foi o recuo da pobreza extrema desde meados do século XX, tendo sido retiradas da miséria absoluta enormes percentagens da população mundial.

Vale a pena atentar nos dados históricos e geográficos desta transformação.

3.1. Os números de meados do século XX (anos 1950)

Quando olhamos para a década de 1950, a realidade global era radicalmente diferente da atual. Com base nas reconstituições históricas de dados económicos adotadas pela plataforma Our World in Data (com destaque para o modelo do economista Michalis Moatsos):

  • A taxa de pobreza: Por volta de 1950, cerca de 50% a 55% da população mundial vivia abaixo da linha de pobreza extrema.

  • População absoluta: Como a população global da altura era significativamente menor (cerca de 2,5 mil milhões de pessoas), isto significava que sensivelmente 1,25 a 1,35 mil milhões de pessoas viviam na miséria absoluta.

  • Contexto histórico: No século XIX (ano 1800), essa taxa era superior a 80%. Portanto, a primeira metade do século XX já tinha iniciado uma descida percentual, mas a esmagadora maioria das populações da Ásia, África e parte da América Latina continuava sem conseguir suprir as necessidades calóricas e de abrigo mais elementares.

(Queda histórica da pobreza extrema no mundo. Fonte: shorthandstories.com)

 

3.2. O ponto de viragem histórico (1981 - 1990)

O Banco Mundial começou a recolher dados estruturados e harmonizados a partir de inquéritos nacionais às famílias nos anos 80.

  • Em 1981: Cerca de 42% a 44% do mundo em desenvolvimento estava na pobreza extrema.

  • Em 1990: A taxa global fixava-se em 36%. No entanto, devido ao enorme crescimento demográfico global na segunda metade do século XX, o número absoluto de pessoas na pobreza extrema tinha escalado para o seu pico histórico: 1,9 mil milhões de pessoas em 1990.

3.3. A queda drástica até à atualidade

Nas três décadas que se seguiram a 1990, o mundo assistiu à maior e mais rápida redução da pobreza da história humana:

  • Em 2015: A taxa caiu pela primeira vez para um dígito, atingindo 10%. O número absoluto de pessoas na pobreza extrema caiu de 1,9 mil milhões para cerca de 730 milhões.

  • Atualmente: A taxa global ronda os 8,5% a 9% (um ligeiro retrocesso e estagnação causados pelos impactos económicos da pandemia e de novos conflitos geopolíticos).

3.4. A grande conclusão: Entre 1950 e hoje, a percentagem da humanidade a viver na pobreza extrema desceu de mais de 50% para menos de 10%. Os governos da maioria dos países do mundo conseguiram retirar cerca de 1,2 mil milhões de pessoas da miséria extrema, mesmo enquanto a população mundial triplicava (passando de 2,5 mil milhões para 8 mil milhões).

3.5. Quem liderou esta mudança:

Esta transformação monumental não foi homogénea pelo globo:

  1. A China e o Sudeste Asiático: Foram os grandes motores desta mudança. Só a China, ao abrir a sua economia a partir do final da década de 1970, retirou mais de 750 milhões de pessoas da pobreza extrema.

  2. A Índia: Seguiu uma trajetória semelhante, com forte aceleração a partir da década de 1990.

  3. O desafio atual (África Subsariana): Enquanto a Ásia quase erradicou a pobreza extrema, a África Subsariana viu o número absoluto de pessoas nesta situação aumentar devido ao crescimento populacional ultrapassar o crescimento económico e, mister é dizê-lo, devido a governança medíocre. Hoje, mais de metade dos pobres extremos do planeta vivem nesta região.

4. Educação, literacia e acesso tecnológico

A expansão da educação, o avanço da literacia e a explosão do acesso tecnológico nos últimos 70 anos reconfiguraram por completo a vida quotidiana da humanidade. Esta transformação é sustentada por métricas robustas de alfabetização e infraestrutura digital.

4.1. Literacia global: da exclusão à massificação

No século XX, saber ler e escrever era um privilégio inacessível para a maior parte do planeta. O investimento em redes de escolas públicas transformou esse cenário.

  • O cenário em 1950: Praticamente metade do mundo era analfabeta. A taxa de alfabetização global rondava os 56% (apenas 40% a 45% segundo algumas fontes), com discrepâncias de género massivas – em muitas regiões, o acesso das mulheres à escola era quase nulo.

  • O cenário atual: A taxa de literacia global situa-se hoje nos 87%.

  • A transição geracional: O progresso é ainda mais evidente quando isolamos os jovens (dos 15 aos 24 anos), cuja taxa de literacia mundial ultrapassa os 91%, fruto da quase universalização do ensino primário.

O fosso de género: Em 1950, a disparidade entre homens e mulheres alfabetizados era severa. Embora tenha encolhido de forma monumental, o fosso ainda persiste: globalmente, cerca de 90% dos homens são literatos, face a 87% das mulheres (uma diferença que se agrava de forma drástica em algumas regiões, como a África Subsariana).

Grande parte deste sucesso educacional deve-se à paridade de género alcançada no ensino primário na maior parte do mundo. Mulheres mais escolarizadas geram um efeito multiplicador na economia: têm casamentos mais tardios, menor mortalidade materna e investem mais na saúde e educação dos próprios filhos.

4.2. Educação: escolaridade e anos de estudo

O progresso não se limitou à alfabetização básica, estendendo-se ao tempo total de permanência dentro do sistema de ensino.

  • Anos de escolaridade: Em 1950, a média mundial de anos de estudo formais para adultos era de apenas 3,2 anos. Atualmente, essa média subiu para cerca de 8,9 anos.

  • Ensino superior: O acesso às universidades deixou de ser uma exclusividade das elites ocidentais. O rácio bruto de matrículas no ensino superior (Gross Enrolment Ratio da UNESCO) saltou de <5% em meados do século XX para >40% na atualidade.

4.3. A revolução do acesso tecnológico

A velocidade da adoção tecnológica na última metade do século XX não tem paralelo com nenhuma outra invenção humana (como a eletricidade ou a imprensa). A revolução digital (computadores, internet e comunicações) conectou a humanidade de uma forma sem precedentes.

A linha do tempo da conetividade global

A evolução do acesso à informação passou de um privilégio geográfico para uma rede globalizada em poucas décadas.

·       A era analógica (década de 1950): A comunicação global dependia de redes de telefonia fixa raras, telegramas e rádio. Menos de 10% dos lares nos países desenvolvidos tinham televisão.

·       O nascimento da Web (anos 1990): A Internet aberta começa a dar os primeiros passos. Em 1995, menos de 1% da população mundial estava conectada (cerca de 40 milhões de utilizadores).

·       A viragem do século (ano 2000): A conetividade chega a cerca de 400 milhões de pessoas (6,7% do planeta). Começa a expansão meteórica dos telemóveis.

·       O ponto de inflexão (ano 2010): A internet alcança os 2 mil milhões de utilizadores (29% global). Os smartphones começam a substituir os computadores como principal porta de acesso.

·       A sociedade hiperconectada (atualidade - 2026): A humanidade ultrapassa a marca histórica de 6 mil milhões de pessoas online, o que representa ~73,6% da população do planeta conectada à rede.

4.4. O desafio moderno: a divisão digital

Apesar dos números impressionantes, o progresso tecnológico gerou uma nova forma de desigualdade: a exclusão digital.

Cerca de 2,2 mil milhões de pessoas continuam totalmente offline. A maioria desta população está concentrada em zonas rurais da Ásia Meridional e da África Central. Nestas regiões, as barreiras já não são apenas a falta de infraestrutura (cabos ou satélites), mas sim o custo financeiro dos dispositivos e a falta de literacia digital para utilizá-los de forma produtiva.

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