A guerra que se trava nos jornais

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Há uma guerra dentro da guerra. Por baixo do cessar-fogo entre Washington e Teerão trava-se um conflito paralelo, silencioso na forma e devastador na substância, entre os Estados Unidos e Israel. As armas são fugas de informação. Entre Março e Julho contam-se oito: seis com origem em responsáveis americanos, duas contra-fugas israelitas. A assimetria é o primeiro dado. Não é o mais importante.

Em Março, o Wall Street Journal revela que Israel mantinha os negociadores iranianos, Araghchi e Ghalibaf, numa lista de alvos. Em Junho, o Pentágono eleva a espionagem israelita ao nível de ameaça reservado a Estados adversários; os alvos eram os arquitectos americanos da negociação com o Irão. Semanas depois, o Washington Post publica a avaliação de que Netanyahu tomará medidas para minar o acordo. No início de Julho, o New York Times conta que Israel planeou assassinar os negociadores depois do cessar-fogo – o avião de Ghalibaf aterrou de emergência com dois caças israelitas à espera. E a 12 e 13 de Julho, o mesmo jornal revela a peça final: o Mossad cultivou durante anos Ahmadinejad como activo e candidato para um Irão pós-regime. O antigo presidente está em prisão domiciliária.

Lidas isoladamente, são histórias de espionagem. Lidas em sequência, são outra coisa. As fugas americanas desmontam, peça a peça, o dossier israelita de mudança de regime no Irão: a capacidade – a espionagem; a intenção – a sabotagem do acordo; o método – os assassinatos selectivos; o candidato – Ahmadinejad. Isto não é indiscrição. É política.

A comunidade de informações americana está a usar a imprensa para conter um aliado, fazendo pelos jornais o que os canais diplomáticos já não conseguem.

Uma cautela sobre a última peça. Ahmadinejad, negacionista do Holocausto, não é um recruta típico do Mossad. A confirmar-se, seria uma das operações de aliciamento mais audaciosas de que há memória, queimada pela fuga americana. Mas quem faz fugas conhece o manual das falsas bandeiras.

Ahmadinejad foi apontado por fontes americanas, antes desta guerra, como figura bem-vista pela Administração para um Irão em transição. Não é impossível que a operação seja a inversa: Israel a queimar a opção americana, vestindo a fuga com roupagem nova-iorquina. Seria desinformação clássica. O efeito objectivo é o mesmo: o activo fica inutilizado para todos. A autoria fica em aberto.

A resposta israelita confirma o diagnóstico. As duas contra-fugas, concentradas no grupo Jerusalem Post e Maariv, não desmentem o conteúdo. Caçam o autor, acusando a Casa Branca, com o vice-presidente Vance à cabeça, de ter entregado a Erdogan o plano curdo do Mossad. E sinalizam continuidade: o novo director do Mossad, Roman Gofman, estará a reformular os planos de derrube do regime. Quem não contesta os factos e ataca o mensageiro está a admitir os factos.

Há um terceiro dado, o mais revelador. A fuga do Washington Post não descreve o passado, antecipa o futuro: pré-atribui a Israel a responsabilidade por um eventual colapso das negociações. É um seguro narrativo. A história do falhanço está a ser escrita antes de acontecer. Entre serviços de informações, a moeda única é a confiança.

Quando o Pentágono classifica a espionagem de um aliado ao nível da de um adversário, e o aliado responde caçando traidores na Casa Branca, essa moeda deixou de circular.

Resta o terceiro beneficiário. Cada fuga foi amplificada em horas pela propaganda russa, que não precisou de inventar nada: bastou citar o New York Times. Moscovo assiste, sem custo, às duas comunidades de informações mais integradas do Ocidente a destruírem-se em praça pública.

Quando os aliados deixam de falar por canais e passam a falar por jornais, a aliança já não é uma aliança. É um contencioso.

E nos contenciosos há sempre um terceiro a ganhar.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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